1.3.06

As mais ricas cinzas

Uma flor na mão dela;
Marca a chama que não se apaga.

A neve que cai devagarinho;
Aquece uma paixão dividida.

Uma foto na hora exata;
Lembrança do amor passageiro.

Até o furo que nunca fiz;
É saudade do proibido.

A leveza da trapezista;
Faz dos opostos parecidos.

18.2.06

Queixada, Gregório e o James Dean parisiense

João Victor (www.vigiadanatureza.blogger.com.br) tem um post muito engraçado sobre a estátua de Ademir de Menezes, que fica na Praça da Bandeira. Para falar a verdade, nunca prestei atenção nessa estátua, apesar de falar muito do artilheiro, que é um dos maiores símbolos da união das torcidas do Vasco e do Sport. É que essa parceria foi a forma que meu pai encontrou para me fazer torcer pelo time de Roberto Dinamite.

Mas acho interessante que ela exista. Assim como o fato de João Paulo ter criado a Ponte Gregório Bezerra. Me incomoda muito o quanto somos completamente analfabetos sobre a história do lugar onde moramos. Minha mãe é a pessoa que conheço que mais sabe a história do Recife. Se você pedir ela conta com detalhes a história de como umas mulheres de Casa Forte foram para as janelas, com panelas e assim impediram que o engenho fosse destruído pelos (holandeses? portugueses?).

Bem, como dá para notar, sou ignorante mesmo. Mas explico. As palavras dela daqui a 50 anos vão morrer. Placa na Praça de Casa Forte não tem, nem em nenhum outro lugar que lembre isso. Talvez o nome Avenida 17 de Agosto seja uma referência a esse momento histórico, mas eu não sei nenhum livro em que eu possa ter certeza disso? Quer dizer, como é que podemos viver num País tão sem memória?

Me lembrei disso porque na França fomos na casa onde Graça morou quando era adolescente. Tinha uma placa sobre o pai do amigo dela, que segundo ela era um James Dean do cinema francês dos anos 60, que morreu perto dos 30 anos. É mais ou menos como ir na casa de Dona Jaci e ter na frente uma placa dizendo: "Aqui viveu o ministro da Agricultura, Oswaldo Lima Filho, que foi deposto pela Ditadura Militar e teve sua vida dedicada ao homem do campo nordestino. Tendo sido também deputado federal constituinte e recebido nota 10 por avaliação de entidades sindicais em 1989".

Simples né? Ninguém fez. Os livros sobre ele existem, mas são burocráticos.

Mas isso não é o pior. Como é que se passa na pracinha em frente ao Ibama e não existe nada para homenagear Gregório Bezerra. Quantas histórias lendárias o CPOR viveu, por conta desse homem que era analfabeto até os 18 anos. E quantos outros caras têm histórias tão importantes ou menos importantes. E todos, ou quase, com poucas ou nulas referências que nos lembre dele.

Isso é só para explicar que queria muito fazer um mestrado em história. 2007 vem ai.

15.2.06

Latinidade européia

Desci em Barcelona no dia 17 de janeiro. Andei todos os metrôs do mundo com um montão de malas. Váarias pessoas se ofereceram para me ajudar. Quando cheguei no prédio de Helena já estava adorando o lugar, nem tanto pelo elevador (que me salvou de um colapso de cansaço), mas principalmente pelo calor humano: "Leninha, todas as mulheres dessa cidade estão dando em cima de mim!". Ela me mandou ter calma, não é bem assim mesmo não.

A cidade me lembra o Rio. Um povo sem frescura que adora tomar uma clara, que não chega para conversar do nada tanto quanto os espanhois (eles são catalães), mas que demonstra muito carinho e vontade de viver. As belezas naturais somadas com as arquitetônicas se não batem pelo menos equilibram com o que vi na capital fluminense (claro, sou muito mais de natureza do que arquitetura). Parque Gwell, Montjuic, Bairro Gótico, o Porto, Barceloneta, as Ramblas, Praça Real, La Pedrera, Sagrada Família. Muita gente vai achar que é a cidade mais bonita do mundo. Eu mesmo tenho uma certa tendência a achar isso.

Achei que meus amigos estavam morando muito bem em Barcelona. Fiquei fã totalmente de Lela e Pedro, porque de repente são pessoas tão calmas e estão fazendo uma vida super cheia. Depois de morar na Italia, estarem vivendo e trabalhando e estudando com tanto gosto na Catalunha. E ainda são um casal que parece se gostar pra caramba. O resto do povo não fique com ciúme, tenho meus motivos para me identificar com aqueles dois.

A noite de Barcelona seria o atrativo principal para a maior parte dos meus amigos. Como eu descobri que realmente não tenho nenhum gosto pela vida noturna, só fiquei achando aqueles barezinhos uma coisa muito do caralho. Fui numa boite com Miguel e a gente se divertiu pra caramba, saímos de lá de manhã. Tinha também um bar de jarra de cerveja. E, claro, adorei sair ponteando em barezinhos, bebendo cerveja e comendo uma ou duas tapas em cada porta.

Pena que tinha de ir logo para Madri. Mas Miguel me animou: "a noite de lá é muito melhor do que a daqui!" Como pode? Bem, eu realmente não sou a melhor pessoa para avaliar. Meu território de interesses é bem diferente da maioria dos caras de 27 anos (maio está chegando). Wendy estava meio doente quando eu cheguei. Em compensação já estava adorando andar naquelas cidades sozinho (em Paris, as vezes queria ficar fazendo as coisas com Mateus. Forçando a barra. Mas depois descobri que os interesses de cada um são muito diversos).

De repente podia parar para comer um bocadillo de calamares quando bem entendesse. Delícia! Ou então ir no Santiago Bernabéu fazer uma visita e resolver comprar o ingresso para o jogo que ia acontecer naquela mesma noite. Real Madrid x Betis. Tive que adiar minha ida para Lisboa por um dia, mas valeu a pena. No fim Wendy ainda ficou melhor e pôde fazer um passeio pela cidade comigo e eu ainda conheci a Escola de Teatro.

Lisboa compete com Barcelona para ser a melhor cidade para um brasileiro morar na Europa. Tudo bem, tem tanto brasileiro que o povo português deve mesmo ter um pouco de preconceito (apesar de eu não ter sentido em nenhum momento, ao contrário do que aconteceu na Suiça). Mas é linda. Tem um povo muito simpático. Que fala português (cansa estar falando a língua dos outros). É uma puta capital (com cinemateca e tudo, como faz falta uma coisinha dessas). Mas tem um clima super tranquilo.

Lisboa foi só festa. Felicidade de ver João. A saudade de Chico já estava perto de terminar. Os amigos de Johny foram todos super legais comigo, parecia que eu já fazia parte daquilo tudo. Só me arrependi de não ter passado uma madrugada colando cartazes com Pedro. Nevou quando fomos comer um pastel de belém. Histórico! Trouxe o jornal: "Há 50 anos não nevava assim", dizia a manchete.

Bacalhau, arroz de polvo, vinho barato pra caramba, a melhor mostra de vinhos grátis do mundo (na Praça do Comércio, o cara sai bêbado se tomar tudo o que a galera oferece). Bem, é muito mais barato que na França e pelo menos tão bom quanto a comida de lá. Me desculpem os franceses. A da Espanha fez minha cabeça pela desorganização, tudo é um grande petisco. Na Suiça, só provei mesmo fondue e raclete (um queijo que se derrete na mesa, antes de botar no pão ou batata).

A Feira da Ladra é muito legal. Tão bom passear naquelas ruas. De repente você acha uma livraria de livros infantis, em cima da Alfama, do lado do Castelo de São Jorge, onde se fala português e uma mulher lia um livro para umas trinta crianças. Uma coisa muito mais linda do que a do filme de Meg Ryan. E olha que uma livraria daquelas já seria apaixonante.

A noite de Lisboa é tão boa quando a da Espanha. E ainda tem a vantagem de que a língua oficial é o português. Mas isso eu digo porque... Vocês já sabem. No meu último dia lá, era aniversário de João. A italiana que mora com ele, Francesca, desbancou a minha promessa de fazer uma muqueca e fez uma massa (que eu ajudei a preparar). Por sinal, são três meninas lindas que moram com o cara. Marta é da Colombia e Libb do Mexico. João está bem pra caralho! Só ele ainda não tem certeza disso. Nuria também é outra menina muito especial. Enfim, vou parar de dizer que o cara está com a vida que pediu a Deus. Até porque sei que tem muitas dificuldades também.

Saí de casa e o motorista tentou me enganar, mas português é foda: esperou aparecer a placa de aeroporto para dar o arrudeio. Eu fui bem claro: "prefiro ir pelo caminho que está sinalizado". ELe obedeceu. Peguei o avião e no mesmo dia estava em Recife. Quando cheguei no Aeroporto as malas demoravam e minhas pernas tremiam de saudade de Chico. Que bom estar de volta. A vida chama. O sonho é bom porque dura pouco. Vou trabalhar.

13.2.06

Um inesquecível janeiro

Nunca fui de veranear. Meu único veraneio inesquecível foi um janeiro em Ponta de Mangue, quando aprendi a velejar. Pena que quando tive chance eu não repeti a dose. Agora também tenho um inverno que não vou esquecer nem tão cedo.

Fomos para o apartamento de Graça na Rua Oberckampf no dia 2 de janeiro. Eu, Julio e Mateus. O lugar é absolutamente lindo, tem uma entrada que parece o cenário da cena de Antes do Pôr do Sol em que Julie Delpy leva Ethan Halke (sei que esse nome está errado) para conhecer o apartamento dela.

O apartamentinho é todo transado, mas nem fizemos tanta coisa nele. Um dia recebemos Mauricio Silva e enchemos a cara de vinho, para depois o vizinho de baixo ficar reclamando. Outro dia cozinhei uma coisa gostosa pra caramba. Mateus dormiu pra caralho, como sempre. E Julio Cavani infelizmente perdeu a chance de comer uma gatinha ali.

Museus, museus, museus. Tudo bem, me sentia um ignorante tábua rasa com todas as informações que Mateus tinha sobre aqueles quadros. Julio e João ainda dava para eu enrolar, com um pouco de sensibilidade. Mas pelo menos perdi o medo de ser um ignorante completo que odeia exposições. Pontos altos: Big Bang (no Pompidou), Vienna 1900 (Grand Palais) e a visita ao acervo do Musée D`Orsay (Degas e todos os impressionistas... Fuderoso!). O Louvre é gigante, impressionante, mas eu não consegui desvendá-lo em minhas sete/oito horas de visita (ponto alto foram uns quadros gigantes renascentistas. E o ponto baixo foram dez euros gastos em um retalho de pizza massudo e uma coca-cola choca).

Saídas na noite parisiense? Para dizer a verdade ficou entre eu não gosto de noite e a gente não teve sorte em Paris. O mais engraçado foi ver a cara de Julio Cavani depois de ser barrado em duas boites: Dado, você á mais bonito, tenta entrar nessa ai. Eu pago. Quanto é? 20 euros. Paga ai Julio. Passamos 20 minutos e voltamos para casa. Noite merda da porra. Como ensinou Mauricio é melhor comprar uns vinhos e beber com alguém, mas só fiz isso uma vez na casa de Carol Barreto. Uma outra saída foi bem legal, mas eu nem conto quanto eu gastei. Juro que não bebi nenhum cerveja de seis euros, que é o preço básico nas boites.

Depois que os meninos foram embora ainda fui para Nanteuil. Queria ter passado mais tempo lá, com Graça, Pedro e Patrice. Mas foi legal. Próxima vez vou até Chantilly de bicicleta. Dou uma volta de cavalo com Graça. Convenço Patrice a me deixar cozinhar um dia. Enfim, tem várias coisas a realizar ainda. Além de levar Chico no Parque Asterix, La Villete, alugar um barquinho a vela miniatura nos jardins de Luxembourg, ir no Castelo de Versailles com os pirralhos de Maurício e Anne...

Despedida histórica. New Morning, um dos maiores templos do jazz parisiense. Valia só pelas fotografias naquela parede. O show de Aldo Romano e Andrea Cicarelli (evento do início do ano em Paris, dizia o Liberation) foi um plus muito legal. Trouxe uma coleção de jazz antigo comprada lá, que queria ter dado de presente a minha mãe, mas dei bobeira (achei que ela não ia gostar...). Como é que a pessoa descobre o presente ideal, e fica inseguro depois?

Está ficando gigante. Depois conto como foram meus dias de Península Ibérica.

11.2.06

40 dias de um macaco tomando vinho

Há nove anos, era Carnaval e eu já sonhava em ir para a Europa. Não é possível escrever todas as historinhas dessa viagem em um post, mas vou me esforçar para escrever pelo menos aquelas mais óbvias que quem está me encontrando aqui em Recife já cansou de ouvir. O título está meio trash, mas é que na estação de esqui (Murren) nos Alpes suiços me senti isso mesmo. Comer um fondue naquele lugar, a três metros de altitude, não é uma coisa que eu faça no meu dia-a-dia.

O primeiro dia de Paris já foi lindo. É ridículo a pessoa conhecer um lugar superficialmente, mas tem lugares como o Rio e Paris e Barcelona que vale a pena se for sua única opção. Se tiver chance indico que a pessoa more um tempo em qualquer uma dessas cidades. Tinha visto recentemente Os Sonhadores de Bertolucci e fui ver a vista da Torre Eifell justamente do Trocadeiro (a antiga Cinemateca). O Louvre é gigante. As ruas são lindas. Sensação de irmandade com Pedro. Enfim, foi bom sentir o cheiro da França.

No dia seguinte fomos para a ceia de Natal dos Rabaroux. Tive a minha segunda experiência com a mais típica piada francesa: 1 (no aeroporto) - vejo o cara dizendo que não sabe falar inglês, me aproximo e pergunto em francês macarrônico pela minha mala, ele me responde em perfeitamente intendível língua de Shakespeare. 2 (no jantar) - a mãe de Patrice me dá as boas vindas e tal, "não sabe falar francês... Mas com certeza fala inglês." Com ar de desdem. Tenho culpa se os americanos têm o triplo do PIB da França e ainda habitam um certo continente chamado América? Bem, dei meu troco, semanas depois faria um cordeiro no curry bem melhor do que o que comi naquele dia e vou repetir assim que tiver um carro para ir comprar a carne no Mercado da Madalena (viu Simone/Mateus, foi mal a promessa antecipada, mas um dia sai).

Nancy, Strasboug, Berna. Uma rápida viagem para a Suiça. Em família, eu, Graça, Pedro e Patrice ficamos na casa de um casal suiço que tem três filhos. Uma família linda, que mora perto de Interlaken (uma das principais áreas de esqui da Europa). Aquele País é todo um cartão postal. Fica mais ridículo ver os restaurantes de Gravatá depois de estar ali... A história típica: derrubei uma alemã esquiando, a cinco quilômetros por hora. Ela botou para gritar em alemão. Queria me processar. Eu só entendia o BREZILIEN, mas dei meus contatos e ela foi retirada de helicóptero. Não teve nada, era só esparro de uma saudosa compatriota de Hitler (um amigo meu disse que eu devia ter perguntado se ela estava com saudade do Nazismo, quando contei essa história toda).

A história mais típica de todas. Caramba, juro que essa é a última vez que conto isso. Reveillon. 31 de dezembro. Na frente da Sacre Couer. Eu e Pedro encontramos João (que saudade!), Clarinha, Julio, Mateus e mais uma galera. Cachaça, cerveja, vinho, champanhe e uma smirnoff ice. Depois de meia noite a gente ainda estava perdendo em gritaria para os italianos, mas Pedro começou a fazer o maior sucesso. Bonne Anne! Duas horas da manhã, estava completamente embriagado. Vamos voltar para casa. Os meninos seguiram o passeio. Entramos no metrô (Garre do Nord). Nego sendo preso adoidado. Enfrentando a polícia para se fuder. E tropa de choque é a mesma coisa em qualquer canto. Bate primeiro para depois perguntar. Depois de ver umas quinze prisões, finalmente conseguimos entrar num RER que nos levaria para perto de Nanteuil (o trem só sairia de 9h). Quando começou a andar um negão do meu lado grita: Seus otários, bando de corno, nem me pegaram! Para quê? Entraram uns trinta policiais metendo porrada no cara e tiraram ele do trem. Meia hora depois Graça pegou a gente em Mitry Claye. Coitada!

Depois faço outro post contando como foi meu primeiro mês de 2006.

7.2.06

O ano da virada

Na minha Sexta Série eu fiz um livrinho lindo, que tinha suásticas coloridas na capa e foi assunto de muita discussão entre as professoras do Instituto Capibaribe. É que além da capa tinha uma uma redação que foi super elogiada, e lida em voz alta na frente da turma, por Débora Suassuna e uma outra sobre o Carnaval de Olinda.

Eu sempre ia passar os Carnavais da minha infância nas casas que minha mãe alugava. Um saco! Eram os pirralhos (Tuti e os irmãos Cavani) brincando de boneco e eu meio ali perdido. O que mais odiava era quando Inalda ou Ana Simões vinham me obrigar a participar de algum bloco, Tereza era a única que não tinha esse tipo de atitude.

Naquele ano, 1989, não sei porque motivo acabei ficando o Carnaval com meu pai. Ele não era um cara de se programar. Muito menos de pensar coisas para fazer com os filhos. Muito menos numa Terça-feira de Eu acho é pouco. Fomos juntos. Deve ter sido um saco para ele, mas para mim criou todo o prazer mítico de viver esses quatro dias.

Me lembro de procurar o bloco pelas ruas de Olinda. Parecia uma coisa tão importante. Correr para pegar a chegada no Bêbado e o Equilibrista. Tomar meu primeiro porre de lança, das mãos do meu pai. Me interessar pela primeira vez por uma menina que não se chamava Helena Marques (e que anos depois veio me dar um beijo num Sábado de Zé Pereira, como será o nome dela?).

Mas na minha redação o que mais me chamava a atenção era uma disputa que houve. Sobe ou não sobe a Misericórdia? Claro que sobe. "Criança sobe de ré!", me ensinou papai. E a frase parece que acabou virando uma tradição familiar (ou já era?). Com certeza estava muito mais fresca do jeito que escrevi no meu livrinho, mas a memória continua me dando muito prazer. E o bloco também. Apesar de só ter entrado na festa de 3 horas da manhã, dada a falta de ingressos. Eu acho é pouco.

2.2.06

Desorganizando posso me organizar




Viajar é preciso








Umas poucas fotos da segunda parte da viagem. Barcelona, Madrid e Lisboa. E uma foto do pirralho que eu estava mais morrendo de saudade, com a roupinha que eu Graça e Pedro demos para ele.

16.1.06

Duas historias

Odeio escrever sem assento. Estou saindo da França amanha. As minhas férias agora seguem para Barcelona, Madrid e Lisboa. Rapidamente vou estar de volta ao trabalho. Carnaval e tudo mais...

Estou sem muita poesia para escrever. So para dizer que viajar é a melhor coisa do mundo e que cada vez mais vejo coisas que queria fazer com Chico por aqui.

20.12.05

Férias

Ainda queria falar sobre a morte de Tiago João da Silva. Um cara de 18 anos. Conhecido desde os 11 pelo apelido de Menino-Aranha. Adorava sair em jornal. Foi assassinado pouco tempo depois de sua cara ser divulgada pelo Diario de Pernambuco. O Jornal do Commercio ainda resistiu a tentação. Não acho que tenha sido coincidência. Para mim, os 17, 20 ou 24 tiros poderiam ter sido evitados com um pouco de responsabilidade editorial. Lógico que o Estado também tem sua responsabilidade, até maior, por não conseguir ressocializar ninguém (e falo isso depois de ter ido em quase todas as unidades da Fundac em Pernambuco). Mas é triste ver que a burrice da Lei só não é maior que a nossa ganância pelo lucro (!?) fácil.

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Mas esse blog entra definitivamente de férias a partir desta quinta-feira. No fim de janeiro estou de volta. Paris, Nancy, Bernna, Paris, Nanteuil, Barcelona, Madri, Lisboa. Quem sabe não consigo botar uma foto aqui.

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Aos que eu não consegui falar tudo de bom. Nada de devagar e sempre. Prazer em doses cavalares é necessário. Bom Natal e Feliz 2006!

29.11.05

Crônica de uma tragédia

ARTIGO

Nasci em 52, mas estive na final de 50

Publicado em 29.11.2005 no Jornal do Commércio do Recife

ANTONIO AZEVEDO

Finalmente, sei o que sentiram os 200.000 brasileiros que estavam no Maracanã, em 1950. Vivo no Recife há cinco anos e aqui redescobri o ambiente de futebol que vivi em São Paulo nos anos 60, e como bom santista não tenho outro time a não ser o meu. Entretanto, pelo ambiente familiar que reina nas ruas e nos estádios daqui, vou freqüentemente aos jogos dos times locais. No sábado optei pelo jogo dos Aflitos. Provavelmente eu era o único entre os 21.950 torcedores do Náutico que não vestia a camisa alvirrubra, os outros 50 vestiam a do Grêmio. Sem entrar em maiores detalhes da partida, conhecidos por todos, eis o que presenciei: durante os 25 intermináveis minutos de paralisação: os torcedores rezavam, andavam de um lado para o outro, sentavam, levantavam e vibravam a cada nova expulsão. Eu torcia para que houvesse mais uma e acabasse o drama, sim, o drama, pois via os jogadores do Náutico se portando como os torcedores e temia pelo desfecho, pois o técnico, como todos lá presentes, também sem controlar as suas emoções, em nenhum momento reuniu a equipe e montou uma estratégia para os 10 minutos restantes, para usar com a vantagem de quatro jogadores.

De repente, pegaram a minha mão esquerda, era um menino de nove anos, que me disse que daria sorte. Quase simultaneamente um senhor fez o mesmo com a minha mão direita, a corrente espalhou-se pelo estádio, e quando olhei para a área do Náutico, o zagueiro Batata, o goleiro e mais outro jogador estavam ajoelhados e também de mãos dadas, rezando, quando houve a defesa do pênalti, Kuki e outros jogadores se jogaram ao chão em desespero.

Mas o time e a torcida prepararam-se psicologicamente para uma decisão naquele pênalti, esquecendo que ainda havia preciosos 10 minutos a jogar, com 11 alvirrubros contra sete gremistas. Logo a seguir, a torcida foi tomada por um sentimento de desespero, impotência e frustração jamais vista por mim em nenhuma outra situação: vi vovôs, vovós, garotos, garotas e crianças chorando copiosamente, sem saber o que fazer, vi inúmeros torcedores falando sozinhos, clamando a Deus o porquê daquilo, gente na rua, que de repente, dava meia-volta em direção ao estádio, como se fosse possível voltar o tempo, vi gente andando e sem mais nem menos, de repente, parar, sentar no meio-fio e começar a chorar, vi inúmeros amigos amparando outros em tentativas inúteis de consolo e, sem sucesso, juntavam-se num abraço sofrido e vi muitos outros alvirubros sentados e sem força para sair do estádio, pois não sabiam para onde ir e nem o que fazer...

Eu que tanto li e ouvi a respeito da comoção do Maracanã e que, na década de 60, na minha primeira visita a esse estádio sentei na arquibancada vazia e fiquei imaginando aquele fatídico dia, hoje posso afirmar: eu, que nasci em 1952, também estive naquela final de 1950 !

Antonio Azevedo é paulista

27.11.05

Só sendo

Tudo deu errado.

Me fudi.

Num tinha mais o que fazer.

Comecei a me desesperar.

Nem fugindo.

Fudeu!

Ai me lembrei:

Podia ter nascido alvirrubro.

Comecei a rir...

Ps: Juro que torci mais do que muitos torcedores do Nautico, mas foi a coisa mais surreal que já vi no futebol.

24.11.05

Diálogo recente

- Meu irmão você num tem vergonha não. Mentiu o suficiente para uma vida inteira dizendo que as passagens iam baixar com a saída das kombis.

- Caralho! Tu não vais mais para o céu não.

- Eu só escrevia porque o meu chefe mandava.

- E eu acreditava naquele papo do prefeito.

- Eu tô ligado... Preocupado com todas as pessoas do Recife que vão procurar emprego a pé...

- Quantas vezes eu não coloquei aqueles índices no papel?

- A gente tinha tudo decorado. Ainda bem que já esqueci tudinho.

Só ficou mesmo o sentimento de um esforço enorme feito em vão.

Eu aprendi.

22.11.05

R$ 0,15 centavos

Eu que pego ônibus todo dia acho que não faz diferença nenhuma o aumento das passagens.

Isso de achar que o povo está preocupado com as moedas é coisa de maluco do PSTU.

Se pessoas sérias como o prefeito João Paulo e o governador Jarbas Vasconcelos aprovaram eu tenho mais que dar com prazer as moedinhas.

Aliás, eu nem dou. Deixo de receber.

Tudo bem que sempre tem aquela surpresa. Cadê? Com o um real que eu tinha eu poderia voltar, se... O velho se?

Mas para que voltar para casa de ônibus. Estou tão fora de forma, preciso mesmo de umas caminhadas.

Dá para fazer os 12 quilômetros entre o trabalho e minha residência em pouco menos de três horas.

Eu acho até que o prefeito zen deveria dar uma declaração mostrando o valor que a caminhada tem.

E talvez Jarbas podesse dar o exemplo e ir e voltar para sua casa, tão pertinho do Centro, caminhando.

Ele ainda poderia comprovar a segurança transmitida pela Secretaria de Defesa Social dispensando os oficiais que fazem sua segurança particular.

Agora absurdo é um monte de desordeiros virem agredir o Batalhão de Choque e destruir a propriedade privada.

E, crime mais grotesco ainda, muitos eram meros cidadãos travestidos de estudantes. Afinal, só quem tem direito a andar de ônibus são os alunos que possuem Passe Fácil.

Talvez a lógica seja essa mesma. Proibir através do preço a utilização do transporte público pela população adulta, claramente fora de forma e precisando de exercício físico.

Eu não vou nem falar em Privatização. Regulação. Corrupção. Quilômetro rodado. Fabricação de números. Financiamento eleitoral.

Eu só queria mesmo achar um paralelepípedo para jogar na cabeça de nego (sem conotoção racista, por favor).

11.11.05

Release de engenheiro

Não conheço muitos assessores de imprensa que gostem da profissão. Devem existir. Mas a maioria acha o trabalho desnecessário e chato. Afinal, para que escrever uma coisa de forma agradável se o repórter vai pegar nos seus calos na hora de fazer a matéria. E se é para contar com um jornalista comprado seria melhor para o assessorado pagar o ?jabá? diretamente para quem está na redação.

Bem, de vez em quando a gente se pega lendo uma coisa que lhe leva a pensar um pouco diferente. Veja o mal que o corte de custos as vezes causa a uma empresa. Vejam esse e-mail que recebi hoje (detalhe, não sou usuário e nunca comprei nenhum produto da Jinx):

Caros usuários,

O FutSim foi lançado em abril de 2003 e já está perto de completar três anos (NÃO COMPLETOU NEM O PRIMEIRO MANDATO). Isso se não contarmos os três anteriores ao lançamento (período de desenvolvimento (QUE DUROU MAIS DO QUE A EXISTÊNCIA DO PROJETO).

Nesse período, a Jynx Playware passou por uma série de mudanças estruturais e estratégicas. A empresa, que inicialmente nasceu para desenvolver o projeto, em 2004 encontrou um nicho de mercado muito mais rentável do que o do FutSim.

(JÁ QUE SÓ TEMOS COMPROMISSO COM O LUCRO FÁCIL...) Desde então, naturalmente a empresa foi mudando seu foco de negócios e acabou
entrando definitivamente no mercado de jogos sérios (CARALHO! ESSA FOI DEMAIS! JOGOS SÉRIOS! DEVEM SER MAIS CHATOS QUE O FUTSIM! E O PRODUTO DELES NÃO ERA SÉRIO POR QUE MESMO? CONTRAVENSÃO? IMORALIDADE?), onde hoje está estabelecida e em constante crescimento.

Nesse meio tempo, o processo natural de ?envelhecimento? do FutSim foi acontecendo. Hoje, chegamos ao ponto onde precisamos focar nossos esforços em outros projetos mais alinhados ao nosso planejamento para o futuro e não temos recurso para deixar o FutSim rodando estável e implementar novidades (OU SEJA, O JOGO É UMA MERDA MESMO).

Por esses motivos, é com pesar que anunciamos que o jogo será descontinuado a partir do dia 31/11/2005. A todos que efetuaram pagamento de assinatura (inclusive os que não chegaram a ter as contas liberadas), estaremos devolvendo a quantia proporcional ao tempo restante, contando do dia primeiro de novembro até o final do prazo. Para isso, cada pessoa deverá seguir um procedimento
simples, descrito no último tópico desta mensagem. (COMO EMPRESA FILHA DA PUTA EXIGIREMOS UM PROCEDIMENTO DESNECESSÀRIO PARA QUE VOCÊ SEJA RESSARCIDO PARCIALMENTE, QUANDO POR DIREITO DEVERIA SER PLENAMENTE RESSARCIDO. ASSIM, ESPERAMOS LUCRAR UM POUCO MAIS COM OS OTÁRIOS QUE NÃO SE TOCAREM QUE PAGARAM POR UM PRODUTO QUE NÃO RECEBERÃO PLENAMENTE).

É importante ressaltar que a partir de hoje não estaremos mais fazendo cobranças e não estaremos dando suporte técnico (DEIXOU DE DAR SUPORTE AUTOMATICAMENTE), relacionado ao jogo, por e-mail ou telefone. Apenas estaremos esclarecendo dúvidas e gerenciando o processo de ressarcimento das assinaturas, através do e-mail encerramento@futsim.com.br.

Agradecemos a todos os (OTÁRIOS) que estiveram conosco todo esse tempo. Esperamos, em breve, poder estar juntos novamente.

Abraços,
Equipe FutSim.

3.11.05

O jardineiro fiel

Fazia tempo que queria ir ver esse filme. Mas estava meio sem saber o que esperar. Claro que não é um filme brasileiro. É mais um filme de Hollywood. Só que tem um diretor brasileiro. Para mim isso é muito. Torço por brasileiro na NBA, futebol europeu... Por que não torceria por um diretor de cinema que entrou no mundo do cinemão.

U$ 25 MILHÕES. É HOLLYWOOD DA PESADA!

Agora o que achei. Acho muito parecido com a trama de O Informante. É o mesmo jogo de intrigas. Falam muito de um tom social, próximo das favelas africanas (tinha escrito européias). Exagero do caralho!

Fernando Meirelles sempre foi o riquinho mesmo.

Mas isso não importa. O filme é excelente. Me surpreendeu em vários momentos. Joga com várias informações ao mesmo tempo. No meu complexo de corno do caralho fiquei com uma pena do caralho de Ralph Phienes até o meio do filme.

A minha única raiva é da propaganda do World Food Program. O mercado da charity agradece (isso é uma piada interna, que infelizmente Inalda não vai ler). Mas nisso eu já estou voltando para analisar a Política por trás da película.

Num tenho jeito.

Para alguns, talvez o casal negro e branca pareça um pouco idealista demais. E o diplomata é passivo em excesso para minha visão latina. Mas o interessante é que o esquema de corrupção que aparece é muito real. E, quem não é burro, se diverte.

Aula para quem viveu ou viverá assistindo negociatas.

27.10.05

Homo Sapiens

?As pessoas acham que hoje vivem mais para o prazer do que no passado, mas isso é uma grande ilusão. Todo mundo trabalha como louco, chega em casa moído, não tem tempo para nada e vive obcecado com a busca do prazer instantâneo em doses cada vez mais altas?, resume o psicanalista Jurandir Freire Costa.

Se "as pessoas" diz respeito aos Homo Sapiens Sapiens eu estou fora.

21.10.05

Pandemia

Jornalista é uma raça incompetente mesmo. Faz mais de uma semana que ouço falar na gripe aviária diariamente. Sempre se usa a palavra Pandemia, mas ainda não sabia o que isso significava. Sempre ficava esperando um aposto explicativo, mas ele nunca vinha. Então fui no dicionário:

Pandemia é uma epidemia que atinge num curto período de tempo as populações de numerosos países.

É bastante grave, não dá nem para pensar que os caras não explicam para causar mais medo ainda nos leitores/ouvintes/telespectadores. Ou seja, é incompetência muita mesmo. Agora eu acho que a quantidade de matérias sem aprofundamento que tenho lido só pode ser uma tentativa de fazer com que as pessoas pensem que o mundo vai acabar.

A Gripe Aviária tabela com a Febre Aftosa, mete na esquerda para a corrupção sistêmica, que recua para a gripe, cruzou, de cabeça, e a Febre Aftosa acabou o mundo. É gooooooooooooooooooool!

18.10.05

Viajar é preciso

Passei 24 horas em Petrolina. O que conheci foram as delegacias e penitenciárias. Mas achei muito legal o que vi no caminho.

Do avião a gente vê as formas geométricas da agricultura irrigada. Círculos de uva, retangulos de manga, diversas formas diferentes de melão.

Tudo bem que aquela riqueza toda pouco chega para o cidadão comum. Mas só daquela terra estar sendo aproveitada já acho muito bonito.

A cidade não é nenhuma jóia. Só não tem a sujeira toda de Recife, Caruaru. Mas também não é organizada como as cidades mais bonitinhas do Nordeste.

Voltei com um primo meu que trabalha exportando frutas. Maior empolgação com a safra de uva. É muito bom produzir.

Fico pensando na ironia de João Lima. "Esse negócio de arte, não está com nada. O negócio é trabalhar em café e comer bem".

É muito legal produzir arte, mas o saco é ficar andando em círculos. Falta, falta, falta. Dinheiro, dinheiro, condições.

Com a Política não é muito diferente. Aliás, as faltas da arte são em grande parte fruto das dificuldades do resto da vida.

Mas a verdade é que eu fiquei com a maior vontade de plantar mais e mais. Meus 100 pés de maracujá são tão pouquinho...

4.10.05

Volta às origens

Gosto de contar uma anedota que parece só ter graça para mim. Ia passando pela mesa dos mais velhos no aniversário do professor Marcos Lima quando me interessei por uma história que Dona Jaci, a viúva do saudoso ministro Oswaldo Lima Filho, contava:

- O maior ladrão que já passou por Pernambuco chamava-se Julio Maranhão.

- Meu bisavô Dona Jaci..!

Me parece que houve um momento de silêncio.

- Esse cara concorda com as piores coisas que você disser mamãe, salvou-me o aniversariante.

Infelizmente, o respeito familiar prevaleceu e Dona Jaci acabou sem contar mais nada. Fiquei sem ter o depoimento que viria a seguir. Mas ontem, em pleno ano de 2005, tive uma visão que me parece ser bastante semelhante ao que acontecia na época de Doutor Julio Maranhão à frente da Usina Jaboatão.

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Visita da Comissão de Defesa da Cidadania à Usina Salgado, em Ipojuca. Passamos a tarde lá. No ônibus os deputados Soldado Moisés e João Fernando Coutinho, ambos do PSB, iam mangando um pouco de Roberto Leandro.

- Essa estrela no teu peito parece mais um sol.

Fomos logo a uma pequena comunidade. Sítio Pistola. Por que será que tem esse nome?

Um trator derrubava algumas árvores para plantar cana-de-açúcar. Um morador, que estava no local há "apenas" 16 anos, contou o prejuízo que teve: foram 145 mangueiras, 80 coqueiros, sem contar os pés de macaíba, azeitona rocha, etc. A fonte de água que ficava a uns 20 metros de sua casa também foi aterrada.

- Não estamos derrubando nenhuma residência, a casa dele foi preservada. Explicou o empresário Marcos Queiroz, que mudou na semana passada do PT para o PSB e deve ser candidato a deputado federal.

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Conversei com uma liderança que é filho de um senhor de 91 anos. Nasceu no Sítio Zépojuca. A Usina Salgado reclama a posse das terras. Quem tem direito é quem tem o papel ou quem plantou uma árvore há 80 anos?

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Eu não vou mais me encher de contar essa história. Me envergonha que ainda estejámos vivendo o tempo de Doutor Julio Maranhão. Me envergonha a falta de jornalistas que tenham sensibilidade para um drama tão chocante. Salve Bianca Carvalho e a Rede Globo. Me envergonha a classe política. Salve os que continuam lutando dentro do PT e os que criarem novas alternativas.

Minha matéria está no site da Assembléia mas também não dá o sentido todo da coisa: http://www.alepe.pe.gov.br/inicio.php?secao=377&doc=021395DE882613BB032570900003860E

30.9.05

MUDAR DE ENXADA PARA CONTINUAR O PLANTIO

"Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!" A lembrança sofrida do poeta Drummond não vem por acaso: o Partido dos Trabalhadores é nossa "cidade natal". Quando dela se parte o coração fica partido. A alma nublada. É com este sentimento de profunda tristeza que decido, após muita consulta e reflexão - que envolveram diretamente cerca de mil pessoas -, deixar o PT.
Nele aprendi, desde 1987, lições de boa prática política, de coletivismo, de ousadia, de jamais perder o horizonte utópico e o objetivo estratégico do socialismo com democracia. Sob sua legenda, com orgulho de "eterno aprendiz", exerci dois mandatos de vereador do Rio e um de deputado estadual, além de disputar, em memorável esforço da militância, já sem apoio da maioria da direção nacional, a Prefeitura da nossa cidade. O PT construiu uma bela pedagogia da aproximação dos movimentos sociais com a inserção nos espaços institucionais. Ele foi a síntese de um alentado movimento de massas nos anos 70 e 80, que se capilarizou nos sindicatos combativos, nas associações de vizinhos, nas comunidades eclesiais de base e entidades nacionais como a CUT, o MST e a então renascida UNE.
Hoje, porém, o PT reiteradamente nega as lições que nos legou, e, para nossa angústia, perde ossatura, alma, aura. Agigantado nas máquinas do poder, cada vez mais acomodado a elas, acriticamente, deixa de ser um partido da transformação social. Justamente quando enfrenta o maior desafio de sua história, o de ser governo da República, o PT se enreda num vendaval de contradições, ambigüidades, perda de referências e esquecimento de princípios: pratica políticas que se chocam com seu programa, implementa medidas que nunca proclamou em campanha, faz alianças - como é imperativo na política - sem estabelecer fronteiras éticas, por mero pragmatismo. Deixa-nos sem discurso e sem ânimo.
O PT vai reproduzindo, organicamente, um grupo dirigente que Chico de Oliveira define como uma "nova classe": capitalista moderada, formada por ex-dirigentes sindicais e profissionais da política que, a partir dos fundos de pensão, das instituições financeiras e dos aparelhos do Estado, transformam-se em gestores do mercado e mediadores das tensões políticas em favor da institucionalidade conservadora.
Respeitando muito aqueles que insistem em lá persistir e resistir, perseguindo sua refundação ou reestruturação, chegou, para nós, a hora da decisão: o chamado Campo Majoritário continuará, com seus aliados, tendo maioria no Diretório Nacional (51%, sem contar o Movimento PT!), e isto significará a manutenção dos atuais procedimentos, no essencial. Não se faz sequer auto-crítica, não haverá investigação séria e punição dura para quem implementou as práticas escusas que hoje vêm à tona.
A estrela cadente do PT continua emitindo alguma luz, cada vez mais tênue, mas tudo indica que esta energia, na sua fonte, já se extinguiu. A tendência é que o PT se torne uma sigla razoável de voto, bom emblema eleitoral, mas "peemedebizado": sem rigor ético, compromisso com o trabalho de base e mística socialista. Um partido cada vez mais semelhante aos partidos convencionais. Um marco histórico na esquerda brasileira que não soube, no governo central, democratizar radicalmente as relações de poder e manter seus princípios. Um partido que desconstitui, no imaginário popular, a política como protagonismo cidadão que melhora a vida das pessoas.

"Seu navio carregado de ideais, que foram escorrendo feito grãos". É esta a sensação, cantada por Edu Lobo e Chico Buarque há duas décadas, que o governo Lula nos provoca. Sua análise comparativa não deve ser feita com a mediocridade privatista da década Collor/FHC mas com o programa mudancista apresentado em 2002, que conquistou a adesão de mais de 52 milhões de brasileiros. O falacioso "caminho único" do neoliberalismo prosseguiu. O governo não mudou a política econômica, ao contrário: reforçou sua ortodoxia e estabeleceu o superávit primário, que hoje esteriliza R$ 80 bilhões/ano. O pagamento (jamais renegociado) de juros das dívidas financeiras corresponde, no Orçamento da União, em um mês, ao gasto anual com o SUS, e, em quinze dias, ao dispêndio anual com Educação! O Brasil, com a maior taxa de juros do planeta, continua sendo o paraíso dos banqueiros, dos especuladores, das 15 mil famílias rentistas. Para cada real destinado ao Bolsa-Família, R$ 15 vão para o pagamento de serviços da dívida.
O governo Lula não logrou, por isso, firmar políticas estruturantes e reformistas na educação, no meio ambiente, na saúde, na habitação, na cultura, no desenvolvimento agrário e mesmo na assistência social, a despeito das valorosas equipes ministeriais que lá estiveram ou estão. Há um dique de contenção instalado na Fazenda, no Planejamento e no Banco Central que impõe um viés conservador e continuísta ao governo, jogando fora, para nosso desespero, uma oportunidade histórica.
Como diz Emir Sader, que é do aguerrido time que ainda batalhará no PT, "o governo fracassa não porque tenha colocado em prática o programa da esquerda, mas porque seguiu o caminho de menor resistência, de ceder à política econômica herdada, acreditando que com ela ganharia o apoio do empresariado, colocando em prática o programa econômico da direita. Ganhou, mas perdeu seu diferencial - o apoio popular. Se vê hoje cercado pelos seus inimigos de sempre, sem poder contar com seus aliados de sempre - os movimentos sociais, a militância do PT, a esquerda" (JB, 28/8/05).
No plano parlamentar, ser deputado do PT transformou-se numa via crucis: ausência quase total de debate político, nenhum diálogo com o Executivo, que só quer subordinação e imposição vertical em todas as questões. Por fim, no caso Valério/Delúbio e seus superiores, veio a quebra de confiança, pois operou-se um poderoso esquema financeiro paralelo, e com paraíso fiscal (nosso inferno !). Isto foi negado por executores e beneficiários até o último momento.
Em todas as votações e decisões importantes foi exigida da Bancada uma postura contrária ao que histórica e programaticamente sempre afirmamos: reforma da Previdência, lei dos transgênicos, lei de falências, parceria público-privada, status de ministro ao presidente do Banco Central, recomposição do salário mínimo, apoio a CPIs, livre escolha de candidato à presidência da Casa. Bancada acocorada, desrespeitada!
A chamada "base aliada" cristalizou-se com partidos e lideranças de tradição fisiológica, que operam na pequena política, e cobram cada vez mais por um apoio sempre frágil, vez que nunca cimentado no interesse público ou com amálgama ideológico. Contrariados, estes "parceiros" são os primeiros a denunciar esquemas que, para o velho e bom PT, sempre foram condenáveis. Mas quem reage a isso e cobra coerência é marginalizado, punido, acusado de "aliar-se à direita", como se direitistas e espúrias não fossem essas práticas chocantes.
Os dirigentes desta política anti-PT e nada progressista, ao proclamar sua votação "fantástica, surpreendente, muito boa mesmo" nas eleições internas recém-realizadas, ainda dizem que "o militante entendeu que a crise não é do PT mas de todo o sistema político" (O Globo, 25/9/05). Sistema político que o governo não quis modificar, engavetando a reforma por exigência de seus parceiros reacionários - com quem muitos petistas sob investigação, e sequer submetidos a comissão de ética interna, mantém estreitas relações. Para quem sempre ostentou com orgulho a estrela no peito, quanta frustração!

"Ah, recomeçar, recomeçar, como canções e epidemias, ah, recomeçar como a lua, como as colheitas e a covardia, ah, recomeçar como a paixão e o fogo, o fogo..." O toque de partida de Aldir Blanc e João Bosco ecoa em nós como aviso de que nem tudo está perdido. Perene reinício. Nesta conjuntura, a direita se reaglutina, empolgada para voltar ao governo nacional, ciente do poder econômico e midiático que nunca deixou de ter. A direita se constitui inclusive como padrão de moral pública: hipocrisia consentida, onda reacionária, que temos a obrigação de barrar! A esquerda, desmoralizada, com as cartas embaralhadas pelo governo Lula, sobrevive como aposta perdida, entrando em nova diáspora. Os movimentos sociais, combalidos, seguem na luta... e na perplexidade. Estamos amargando uma perda histórica, mas a mesma história, com sua dialética, ensina que não há derrotas definitivas.
É hora de aprender com o grande Apolônio de Carvalho: nunca perder a visão estratégica e manter, mesmo em tempos de desencanto, um otimismo visceral. O desafio é reconstruir uma unidade mínima para a esquerda, resignificar o ideário da igualdade social com um movimento pelo socialismo, forjar uma ampla frente antineoliberal. Este esforço de recomposição só prosperará se baseado num projeto para o Brasil, largamente debatido pelas forças da esquerda democrática. Ele deve incorporar propostas de reestruturação radical do Estado brasileiro, soberania nacional e novo padrão de desenvolvimento econômico e social, auto-sustentável e distribuidor de riqueza e renda. Ele pode aproveitar, sem dúvida, entre outras contribuições, muito do que foi produzido no Encontro do PT de dezembro de 2001, no qual foram forjadas as diretrizes para um programa democrático e popular de governo, hoje abandonadas. Ele partirá do entendimento de que a força social de mudança está na luta popular organizada, na reafirmação de que os meios são os fins, em processo de realização. Tudo isto lastreado na humildade de quem se sabe enfraquecido: sem arrogância, hegemonismos, sectarismos.
Para quem está inserido nos espaços institucionais, importantes instrumentos na democracia formal brasileira, a vinculação a partido político é uma necessidade. É, como disse um lavrador de assentamento, "a enxada para a lavoura, que só serve com lâmina afiada". Mas, além de cumprir prazos e normas cartoriais da lei eleitoral, a opção a ser feita deve tentar responder à questão sobre qual a melhor ferramenta para ajudar no esforço coletivo e plural para se reconstruir as referências estratégicas para a esquerda, para uma outra sociedade, fraterna, possível.
Sem a pretensão de entender este caminho como único correto, ousamos apostar no recém-criado - com o aval de 430 mil eleitores de todo o Brasil - Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL. Ainda pouco conhecido, o PSOL é projeto em construção, propositivo, ideológico, e (talvez por isso) sem grande visibilidade midiática na sociedade de massas e na teledemocracia em que vivemos. Trata-se, portanto, de disposição para moer no áspero e praticamente começar tudo de novo, sem ilusões de que a história se repita. Cientes das imensas dificuldades eleitorais, inclusive - o que tira a razão de quem, equivocadamente, possa ver algum "oportunismo" nessa escolha.
Entendemos que o PSOL não deve ceder à tentação fácil do "contrismo", de crescer por oposição e contraponto ao PT, de onde vieram seus principais quadros e sua entusiasmada militância. O partido, em fase de constituição, deve buscar filiações de quem, com generosidade, acredite sobretudo na organização popular e na elevação do nível de consciência política de nossa gente, hoje tão desiludida. Não pode se contentar com a presença em atos de rua, com justas reivindicações e muitas bandeiras (aquelas que o PT deixou de levar, há anos...): o trabalho político de tecer a rede dos lutadores do povo é o mais importante.
O PSOL, aprendendo com os erros do PT, livre de toda soberba, não deve pretender, nesta hora crítica, ser referência única, centro e pólo, mas tijolo na construção comum, que, depois do terremoto, se inicia. Saber aliar-se, sem sacrificar princípios. Saber ter flexibilidade tática e firmeza estratégica.

"Fazer da interrupção um caminho novo, da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro". Temos, como queria Fernando Sabino, um encontro marcado com a troca de idéias sobre a crise, com o resgate da política do bem comum, com a capacidade de compor, discernindo aliados de inimigos políticos, e estes de adversários, e também inimigos principais de inimigos secundários.
São penosas estas encruzilhadas da história, mas elas não começaram agora. O "breve século XX" pontua a trajetória da esquerda mundial com estes ensaios e erros, poucas conquistas e muitas derrotas, que merecem reflexão atenta. E impuseram escolhas, sempre dramáticas, sempre geradoras de perdas, sempre demandando despojamento e renúncias. Não partimos do zero, como um Sísifo que viu a pedra rolar morro abaixo e necessita começar tudo de novo. Não! É também nossa a herança da democracia direta, do orçamento participativo, do "modo petista" de legislar e governar, com transparência e controle social. Não deixaremos num imaginário museu das lutas populares as experiências de partido-pedagógico e partido-movimento. É da esquerda brasileira a rica experiência do partido de Paulo Freire e Florestan Fernandes, que se reinventava na pluralidade das expressões constitutivas da identidade de um povo que não aceita a "ninguendade" e a pré-cidadania a que as elites aristocráticas e racistas tentam lhe condenar.
Aos que não seguirão conosco, nosso respeito e compreensão, torcendo sinceramente para que consigam realizar o que, após tantas tentativas, já não acreditamos mais ser possível: fazer o PT voltar a ser PT. Esperamos deles também a grandeza do entendimento do nosso gesto, definido não sem profunda inquietação e superação de dilacerantes dúvidas.
Só a história dirá, mais à frente, quem tem razão. Por isso, ninguém deve ter a pretensão de qualquer orgulhoso "eu não disse?". Entendemos, inclusive, que os que estão livres da camisa de força do prazo eleitoral, sem perspectivas de candidatura em 2006, devem concluir o ciclo do PED, votando para a esquerda, minoritária, ter mais um voto e uma potente voz no Diretório Nacional, ponte para a reinserção do partido no campo da democracia socialista.
Estes tempos paradoxais da gestão Lula nos levam ao avesso do avesso na cultura partidária que engendramos: para ser petista de verdade, é preciso sair do PT...
Carlos Drummond, que versejou nossa profunda dor, também alimenta nossa teimosa esperança:


"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas."

27.9.05

Por que não mais PT?

No atual Partido dos Trabalhadores, a minoria está reduzida à inglória tarefa de legitimar as decisões da cúpula

PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO

Tenho, diante de mim, o recorte amarelecido do artigo que publiquei na página 3 da Folha de S. Paulo, no dia 22 de maio de 1981, com o título: "Por que PT".
Alinhei nesse artigo as razões da minha opção por esse partido: um programa de construção do socialismo democrático; preponderância de gente do povo entre os seus fundadores; subordinação da cúpula partidária às decisões dos núcleos de base.
Após 24 anos e quatro meses de militância, sou obrigado a reconhecer que esses não são mais os traços do PT. O socialismo tornou-se mera referência retórica; a consulta às bases, uma ficção; e, a cada renovação dos quadros dirigentes, menos gente do povo é eleita para os postos de comando.

O pior, porém, veio com a vitória de 2002. Apesar das negativas dos atuais dirigentes, a verdade é que o partido se rendeu ao neoliberalismo. Não foi, como se alega, uma tática de transição. Lula e a cúpula petista convenceram-se de que a receita neoliberal de estabilidade do mercado a qualquer custo, de abertura comercial, de terceirização e de privilégios aos investidores estrangeiros é o melhor que se pode fazer para o Brasil.
Os interesses concretos do povo tiveram de ceder às exigências do capital. Nestes dois anos e meio, o assistencialismo substituiu a luta contra a desigualdade, e o governo procurou frear a combatividade dos movimentos populares.
Nesse contexto de crise moral e política, as eleições para a renovação das direções assumiram importância estratégica, pois a indignação dos autênticos petistas abriu a chance de derrotar a até então imbatível máquina eleitoral montada pela oligarquia que dirige o partido há dez anos. Por isso, aceitei o convite para disputar a presidência do PT.
Deixei claro, porém, a esses companheiros e aos que assistiram aos debates entre os candidatos, que a eleição seria um teste sobre a possibilidade de recuperação da legenda não pelo resultado da votação, mas pela forma como o processo eleitoral se desenvolveria.
O resultado foi desanimador: em vários Estados, houve transporte em massa de eleitores e a quitação de contribuições atrasadas (requisito indispensável para votar) pelos cabos eleitorais do candidato da situação e de dois candidatos que se proclamavam de oposição. O peso desses eleitores de cabresto, que, no melhor estilo da política de clientela, votaram sem saber em quem, foi decisivo para o resultado da eleição.
Essa é uma realidade que não pode deixar de ser considerada pelos socialistas que integram o PT. Eles existem e são muitos. Quarenta mil honraram-me com seu voto e outros tantos podem ser encontrados entre os que, conscientemente, preferiram outros candidatos. Mas o total não foi suficiente para derrotar a situação.
Se nem a trágica crise que se abateu sobre o partido e seu governo, nem a evidente divisão da cúpula dirigente, nem a denúncia dos oposicionistas e nem a vigilância exercida pela imprensa foram suficientes para romper a blindagem que assegura a perpetuação do chamado Campo Majoritário (conjunto de correntes que compõem a direção) no comando da legenda, é preciso convir que o PT não mais oferece a possibilidade de que a minoria possa se tornar maioria, como é da essência do regime democrático. No atual PT, a minoria está reduzida à inglória tarefa de legitimar as decisões da cúpula.
Todas essas razões levaram-me à decisão de deixar o PT. Bem sei que não se trata de uma decisão aceita por parte das pessoas que me acompanharam na disputa do PED. Compreendo essa atitude e respeito esses companheiros e essas companheiras com quem quero continuar dialogando. Mas estou convencido de não ter outra alternativa para dar conseqüência a uma opção socialista feita no longínquo ano de 1961 e que mantive até hoje.
As circunstâncias concretas da conjuntura impedem a reunião de todos os socialistas autênticos em uma única organização política neste momento. Não será, contudo, por longo tempo. Logo a existência da unidade se imporá, até como condição da presença da proposta socialista na agenda política do país. Por isso, surgiu, simultaneamente, em diversas vertentes, a idéia de realizar, com todos os núcleos da diáspora socialista, uma reflexão exaustiva sobre os novos caminhos que o socialismo precisa trilhar em uma sociedade que sofreu profundas mudanças nestas últimas duas décadas. Pretendo dedicar a esse diálogo o melhor dos meus esforços.
Para não nos rendermos à imposição de uma legislação eleitoral espúria, vários companheiros, entre os quais me incluo, estão aceitando generoso oferecimento de filiação ao PSOL. Esse partido ainda não estabeleceu, em definitivo, seu programa e sua estratégia, a fim de nos dar tempo para uma reflexão mais cuidadosa.Essa abertura é importante e dá condições para propor um diálogo político bastante aberto entre nós, os socialistas, hoje dispersos em vários partidos e movimentos populares.
Troco de instrumento para não abandonar tarefa. Pretendo continuá-la com a mesma fé e a mesma garra.



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Plínio de Arruda Sampaio, 75, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária). Foi deputado federal pelo PT-SP (1985-91) e consultor da FAO (Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação).

19.9.05

Articulação

Quem não entende o tamanho das brigas internas do PT pode até não acreditar, mas essa me parece a explicação mais plausível para algo tão inesperado. O presidente Lula não votou em Ricardo Berzoini para favorecer a candidatura de Valter Pomar, nas eleições internas do Partido.

Os dois candidatos são oriundos da Articulação, que viria a se dividir em duas correntes diferentes o Campo Majoritário (que é uma extensão da Articulação Unidade e Luta) e a Articulação de Esquerda.

Ou seja, ambos têm anos e anos de convivência com o presidente da República. Após o racha, Ricardo Berzoini continuou na elite do grupo de Lula e Valter Pomar, apesar de estar na outra corrente, foi eleito vice-presidente do Partido.

Nenhum dos dois parece realmente causar calafrios em Lula.

É a explicação mais plausível para que o prefeito do Recife tenha resolvido mudar de opinião e apoiar Valter Pomar e Carlos Padilha. Traindo seu super-secretário e homem de confiança que contava com o seu voto, Dílson Peixoto. Ele já sabia da posição de Lula.

O presidente da República não vai precisar declarar voto para Valter Pomar no Segundo Turno. No máximo, pode dar alguma declaração dizendo que ambos têm condições de fazer um bom trabalho.

Mas, conquistando alguns apoios como o do prefeito do Recife, espera ter garantido a derrota da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio. O deputado constituinte que, com seus cabelos brancos, vem fazendo a cabeça da juventude petista.

É que a vitória de Plínio poderia realmente abalar os alicerces criados pelo presidente Lula, José Dirceu e Companhia Limitada.

O ideal para Lula talvez seja mesmo a vitória de Pomar. Pois assim, o Partido dos Trabalhadores poderia tentar realmente vender a imagem de uma reconstrução. Mas para bom entendedor uma palavra basta.

Articulação.

Outro Brasil

Novo blog do deputado federal Paulo Rubem Santiago: www.outrobrasil.zip.net. Ainda está meio feinho, mas tem um monte de coisas para se ler.

8.9.05

Por que choram os petistas?

?Opaco é o fim do mundo pra qualquer navegador/ que perde o oriente e entra em espirais/ e topa pela frente um contingente que ele já deixou pra trás?. O alerta, poético e profético, foi dado por Chico Buarque e Edu Lobo há exatos 20 anos, quando compuseram ?Meia Noite?, uma canção para a peça ?O Corsário do Rei?, de Augusto Boal.

Furtadas as bússolas éticas e programáticas, em pleno alto mar da crise, a sensação de muitos deputados federais do PT, naquele 11 de agosto, foi de meia noite em nossas vidas. O pranto sentido de tantos, com lágrimas derramadas em cena aberta, era uma síntese líquida de decepção, vergonha e indignação.

Plenário de parlamento é lugar de racionalidades, representações ? algumas bem teatrais ? e certa dose de hipocrisia. Ali, a couraça da persona política que cada um veste não comporta fragilidades emocionais. No entanto, não deu para segurar. As lágrimas públicas já tinham sido derramadas em particular, quando nos reunimos para avaliar as revelações de Duda Mendonça, especialista na arte de erguer e também desconstruir imaginários. Toda maquiagem tem um preço, lembra o marqueteiro, mas nós não sabíamos que a embalagem eleitoral dos generosos anseios de mudança que mais de 52 milhões de brasileiros concretizaram em voto seria paga com trapaças, doleiros e paraíso fiscal. Ali completou-se nosso inferno real!

Ninguém chorou por seus mandatos, por um efêmero status de deputado. Naquele momento de catarse não prevista, choramos o roubo do sonho coletivo (bem modesto, convenhamos) de um país menos desigual, com instituições públicas mais transparentes e protagonismo popular. Choramos a constatação, que teimamos em querer ver desmentida por gestos futuros, de que, no poder, as pessoas não mudam: se revelam. Choramos a força do dinheiro, que vende aspirações justas e pode dar às estrelas um brilho de aluguel. Choramos, sobretudo, a dilapidação do patrimônio ético-político construído por tantos, de Henfil e Helio Pellegrino a Carlito Maia e irmã Dorothy, passando por Chico Mendes e Florestan Fernandes. E sobretudo por milhares de brasileiras famílias Silvas, que aprenderam com o PT que ?reclamando junto melhora?, que ?a luta faz a lei? e que ?direito não exercido é direito perdido?. Choramos, com raiva, a quebra de confiança e a rendição a um pragmatismo que é repetição de tudo o que sempre condenamos.

Mais do que pelo PT e pelo governo, que já se distanciara de nós com suas alianças fisiológicas e sua ultra-ortodoxia econômica, choramos pela derrota da esquerda como alternativa política para este país: num momento de triste emoção, o tempo se condensa e o lamento por um presente que desconstitui o épico passado, de Zumbi a Olga Benário, alcança o escuro do futuro. Choramos por não nos consolar dizer, convictos, que os malfeitos não o foram em nosso nome. As celebrações de dois anos e meio atrás, quando anunciávamos ?o governo de nossas vidas?, deram lugar a um vendaval de perguntas sem respostas, e à vergonha perante as novas gerações, na dúvida cada vez menos duvidosa: fracassamos?

Passado aquele sincero e inusitado desabafo, agarramo-nos à compreensão que afaga: choramos para ter a visão mais límpida e entender que é assim mesmo que se processa a história humana, com forças sociais contraditórias, entre avanços e recuos, fidelidades e traições, emperramentos e superações. E o canto de Chico e Edu, de novo, explica a dor coletiva: ?os soluços dobram tão iguais/ seus rivais, seus irmãos/ seu navio carregado de ideais/ que foram escorrendo feito grãos/ as estrelas que não voltam nunca mais/ e o oceano pra lavar as mãos...?

TEXTO DO DEPUTADO CHICO ALENCAR, PUBLICADO PELO ESTADO DE SÂO PAULO.

27.8.05

Calada ela já está errada!

Quem? A Veja. Claro!

http://vejaonline.abril.uol.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=1&textCode=113048&date=currentDate

Eu não tive nem saco de ler a matéria toda. É que a revista deu um furo danado. Conseguiu uma entrevista que coloca o PSDB no mesmo mar de lama em que o PT está envolvido. Aliás, mostra que foram eles que fizeram primeiro o esquema com Marcos Valério. Na campanha do governador de Minas Gerais e tucano-mor (presidente do Partido da Social Democracia Brasileira), Eduardo Azeredo. Mas tomaram um cuidado tão grande que até colocaram todas as contradições da entrevista do tesoureiro, do homem responsável pela montagem do esquema no PSDB. Por sinal, contradições nada contraditórias. Capaz de não merecer nem capa da revista. Vamos ver. Será que eles são tão vendidos a ponto de perderem a chance de vender mais revistas?

Existem mil casos em que fica provado que não era nada do que a matéria diz (alguns até mesmo antes da revista ir para as bancas) mas mesmo assim a Veja publica os textos. Alguns deles já ficaram famosos. Posar de correta com o próprio partido é bom demais. Um fodam-se para quem acha isso normal. Jornalismo é o caralho!

26.8.05

Juntando os cacos

Construir um ideal. Lutar para torná-lo real. Ter a desilusão. E
reunir forças para continuar. Não é fácil.

Em recente reunião realizada para dar um pontapé inicial no trabalho
de reconstruir o PT aqui em Pernambuco um militante histórico das
esquerdas lembrava da tradição de se gritar: "O Socialismo morreu?
Viva o Socialismo!". Ninguém teve coragem de fazer essa saudação para o PT.

No fundo do poço, nem mesmo os deputados Roberto Leandro e Paulo Rubem
Santiago tinham forças para traçar novos caminhos. Queriam ouvir da
multidão quais seriam os esforços possíveis.

Mas a multidão ainda estava chorando. As discussões inflamadas com
familiares e amigos. O dinheiro gasto para se fazer as primeiras
campanhas (e, para alguns, até mesmo em empreitadas recentes). O suor
derramado. A perda do mito. A vergonha diante dos próprios filhos.
Alguns desistiram de assistir o Jornal Nacional.

Veio do Padre Reginaldo Velozo o primeiro flerte com uma nova (antiga)
caminhada. Fazendo um paralelo com os antigos partidos comunistas do
Brasil, ele lembrou que a diferença do PT era o fato de ter crescido
de baixo para cima.

"Nascemos criticando as estruturas centralizadoras dos partidos
comunistas do Leste Europeu", lembrou o religioso. Para então admitir
que na Década de 90 o PT foi reestruturado para garantir o predomínio
do grupo liderado por José Dirceu (Campo Majoritário), que acabou com
a Democracia interna (muitas vezes se utilizando de manipulação para
vencer eleições e mudar o Estatuto do PT).

O discurso do Orçamento Participativo nas gestões petistas não ilude
mais nem mesmo os gestores do Partido. Muito menos a população. No
Recife, o principal responsável pelas ouvidas é candidato a um cargo
parlamentar. E essa gestão, apesar de ter proximidade, nem faz parte
do grupo de José Dirceu.

Talvez o mais sério seja a falta de diálogo dentro da estrutura
partidária. Os deputados petistas no Congresso Nacional reclamam que o
presidente Lula nunca fez reunião com sua bancada parlamentar. Então
precisam também fazer reuniões e estarem dispostos a ouvir seus
eleitores.

Recomeçar pela escuta do povo é o pontapé inicial. Expulsar os
corruptos do PT. Vencer o debate interno, sob as regras criadas pelo
inimigo. Trazer de volta aqueles que baixaram a cabeça. A batalha como
sempre é injusta. E a solução mais racional, para alguns, será
escolher um novo caminho. "Muda a marca, mas continua a luta pela
Cidadania do nosso povo". Será que diremos isso?

O mito Lula perdeu força. E, em Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar
deixa saudade. No PT, ou fora dele, será preciso ter propostas e
ideais ainda mais avançados que a Democracia do início dos anos 80.

Fui eleitor de Chico Alencar na última eleição, pois passei um ano
morando na querida Vila Isabel. Orgulhosamente, acompanho a atuação do
parlamentar na Câmara Federal. Escrevo essas poucas linhas para dizer
que sua atuação tem servido para encontrar algumas formas de
encontrarmos saídas no mar de lama que se tornou nosso partido.

Como assessor de imprensa do presidente da Comissão de Defesa da
Cidadania da Assembléia Legislativa aqui de Pernambuco, o deputado
estadual Roberto Leandro, vejo na proximidade que Chico Alencar faz
questão de manter com o seu eleitorado (participando de diversos
fóruns e valorizando um encontro semanal, numa carioquíssima política
de rua), no uso da Internet como ferramenta para aproximar o mandato
dos eleitores e finalmente na atuação séria e transparente na Comissão
de Ética da Câmara Federal um dos poucos motivos de inspiração nessa
crise que tomou conta do meu partido.

A caminhada não é fácil companheiros. Obrigado aos que estão conosco.

15.8.05

Cara de adolescente

Apesar de falar muito nunca fui no Aterro Sanitário da Muribeca. Passo pela frente toda semana. E converso muito com o pessoal que trabalha lá, catando lixo, e as vezes com os policiais. Algum dia vou lá.

Semana passada fui na Fundac de Abreu e Lima. Digamos que continuo sem conhecer o ambiente, porque fui acompanhando uma visita da Comissão de Defesa da Cidadania da Assembléia. Ou seja, era uma realidade muito diferente do que Maria Sobral deve pegar toda semana (segundo Julia ela faz isso toda semana mesmo?). Mas só das conversas com o pessoal da administração já fico chocado com a distância entre mundo real e administração de recursos públicos.

Antes mesmo de entrar nas celas uma coisa que me chamou atenção foi a sinceridade com que os diretores da unidade tratam os assuntos. Os problemas são tão graves que eles esquecem de fazer Política e expoem mesmo as mazelas e até mesmo as divergências internas.

Cada quartinho é mais ou menos do tamanho da minha cama de casal e abriga entre três e cinco meninos. Quase todos estão sem colchões, pois foram queimados em rebeliões. Fora o tamanho, parece uma cadeia normal porque, além das grades, sempre tem uns posters de mulheres nuas pelas paredes.

Os meninos estão atualmente sem direito a banho de sol. É uma punição porque eles realizaram cinco rebeliões em 2005. Só que punição maior é ter de dividir aquele espaço com tanta gente. A Fundac era para abrigar 60 e já contou com mais de 200, depois de vários incêndios tem 180 atualmente.

Na minha mente imunda fiquei pensando a quantidade de estupros que aquele pessoal devia se vitimar. Mas depois soube que os estupradores eram vistos com muito preconceito e são até separados do restante dos adolescentes (talvez isso evite um pouco essa atrocidade). Outros que recebem cuidados especiais são pessoas que mataram as mães. Pareceu-me uma coisa muito sintomática.

A reforma da unidade custaria R$320 mil, mas a verba não foi nem mesmo sinalizada. Toda a área administrativa está queimada. Salas de aula destruídas. Redes elétrica e hidráulica em péssimo estado. Isso sem falar nos equipamentos (pelo menos colchonetes). Seria pouco dinheiro se aquilo fosse tratado como pertencente a nossa realidade, mas o discurso vigente incentiva à marginalização.

- Consertar para ter outra rebelião?

Essa é a pergunta. Reforçada pelo fato dos meninos justificarem as revoltas com argumentos considerados fracos (solicitam Bolacha Vitarella, pernoite, galinha assada). Mas a realidade está muito evidente, mesmo para quem vai ali de passagem como eu.

Um menino que entra ali com cara de criança e consegue sair sem ter perdido o semblante deve ser pura obra do destino. Por que aquilo ali é uma máquina de tirar esperanças. E o pior é que vi muitas pessoas ali com cara de adolescente. Justamente o que eles não deviam perder.

Uma informação que chamou minha atenção: a verba de custeio para manter mensalmente 180 adolescentes é de R$500. Imagine isso para uma pessoa que trabalha em um gabinete parlamentar.

O pior é que os juízes continuam mandando gente para dentro, sem pena. E o Governo do Estado faz de conta que se preocupa e continua mentindo dizendo que vai criar uma unidade modelo em Jaboatão. Se fosse para criar alguma coisa que preste deviam ser vários locais que dessem para abrigar pelo menos a quantidade de adolescentes que estão presos atualmente. Tapar o sol com peneira não adianta.

12.8.05

De volta

Estou voltando. Ainda queria contratar alguém para ajeitar a cara desse blog. Mas vou voltando. Agora não estou em condições de falar de Política. Minha mãe me disse: "se lembre que o PFL era pior". Como eu não consigo passar isso nas minhas palavras então prefiro deixar elas só no ar.

Por enquanto vou escrevendo outras bobagens.