28.3.07

O povo

Ontem um cara queria me convencer a tomar um copo de cerveja de R$35. Não, obrigado. Brasília tem muita gente rica.

Hoje estava falando com Bernardo sobre as pessoas que a gente encontra no Congresso. Clodovil, ministros, Chico Alencar (para mim é como se ele fosse ator da Globo), jornalistas, os deputados pernambucanos que toda vez penso que me conhecem (e as vezes conhecem mesmo, fiquei conversando com Rands hoje no elevador), muitos jornalistas, muitos mesmo.

Acho interessante o sutaque genérico do povo de Brasília. Eles estão acostumados com as diferenças... A foto é de Bernardo.

Educação Infantil: entre as promessas e a prática

O ministro da Educação, Fernando Haddad, nesta terça-feira (27), durante audiência na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados realizada para discutir o Plano de Desenvolvimento da Educação, anunciou a criação do Proinfância. "Seguindo o exemplo do que foi implementado pelo Promed (no Ensino Médio)" o programa irá financiar a construção e reforma de creches para diminuir o deficit de vagas na Educação Infantil.

Relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2008, o deputado federal Paulo Rubem (PT-PE) realizou levantamento para mostrar que o programa orçamentário Desenvolvimento da Educação Infantil (1065) apresentou, em 2006, execução orçamentária ínfima. Do total de R$27,9 milhões autorizados, somente R$6,6milhões foram efetivamente pagos, o que representa apenas 24%.

A ação Apoio à reestruturação da rede física pública de Educação Infantil especificamente teve aprovados mais de R$22 milhões, mas foram pagos apenas R$4.348.940, incluindo restos a pagar que tinham ficado de anos anteriores. A única das quatro ações do Programa 1065 que teve um índice de pagamento efetivo acima de 50% é relativa à aquisição de equipamento para a Rede Física de Educação Infantil.

O parlamentar petista acredita que a implantação do PDE não deve servir para que se subtraiam as metas estabelecidas para 2010 pelo Plano Nacional de Educação, que foi aprovado pela Câmara dos Deputados, e em seu lugar sejam criadas outras mais longas. "Precisamos ter uma avaliação para saber onde erramos, onde faltaram recursos e onde acertamos", afirma o petista
O deputado, que é professor da Universidade Federal de Pernambuco, acredita que a sociedade precisa ser mobilizada para fiscalizar a execução das verbas para Educação. Paulo Rubem acredita que, assim, o PDE não será apenas um modismo publicitário para aproveitar o momento posterior ao anúncio do PAC.

A necessidade de abrir vagas na Educação Infantil é reconhecida por todos. A necessidade de fiscalizar a execução do orçamento público também deve ser.

27.3.07

Primeira impressão

Logo que cheguei na França tive a mesma impressão, de que as coisas que imaginavam eram mesmo parecidas com a realidade.

Desci do Aeroporto e Duda me levou logo para a Câmara, dei uma voltinha pela Esplanada dos Ministérios e fui logo para o gabinete.

- Vou precisar desse paletó no Seminário?

- Não.

Foi verdade. Não precisava mesmo. Mas é interessante que entrei no Anexo IV sem dizer nada, mas quando fui passar para o Anexo II me pediram o crachá.

E até nesse encontro tinham vários assessores de imprensa de gravata e tudo.

Só estou achando meio diferente a proximidade entre a contravenção e o Poder. Fui pegar ônibus com Bernardo no fim do expediente de frente para o Congresso Nacional.

- Essas vans são irregulares mesmo?

- São. O transporte público aqui é uma bagunça.

19.3.07

Coração indignado

É terrível.

Mas tão terrível quanto, ou pior, é abrir o jornal e saber da filha de Newton Carneiro pronta para receber uma indenização de 900.000,00 pq machucou a mãozinha ladra num festa da Fundação Yaponatan, presidida pela sua irmãzinha solidária e atenta aos meios escusos de roubar o povo.

Para chegar neste ponto, muita gente - juízes, amigos, advogados, - sorriu maliciosamente. Aplaudiu ou se calou, desejando fazer o mesmo. Muitos conhecidos nossos, pernambucanos legitimos, nesta hora em que lhes escrevo, nos seus apartamentos de 3.000.000,00, arquitetam planos para ligar o imenso aspirador da riqueza e das esperanças e sugar toda substância que embasa um mínimo de acordo social.

A classe média omissa, alienada, não entende que para ser pobre e suportar a exclusão, os pobres têm que se entender em um contexto mínimo de acordo social, de legitimidade, de respeito a algumas regras que lhes permitam aceitar e viver com aumentos de 5 reais enquanto seus políticos acham pouco seus 46%?

O cinismo vem sendo o mote sobre o qual o Brasil dominante estabelece as nossas regras de convivência. Cinismo desmistifica e desestrutura a ordem das coisas. Com que motivos se justificam tamanhas diferenças?

O povo pobre brasileiro está exposto a 6 a 8 médias de tv diárias onde a mensagem final é compre, compre compre. Todo nosso sistema simbólico está montado no cinismo do Biguibroder, do consumismo desenfreado e na calcinha preta.

Até as igrejas, baluartes da moral, se reinventaram na teologia do bem viver e usufruir que levou o bispo da renascer para a cadeia no Estados Unidos, com todo perdão e indignaçãp das coniventes elites dominantes brasileiras loucas para carregar dolares nas cuecas.

Se a tv ensina o consumo, milhares de escolas ensinam e treinam os jovens nas práticas cotidianas da permissividade. Ninguem ensina, ninguem aprende, não existe hierarquias, respeito ao outro, manda quem pode e fala mais alto.

A violência nos prende nos muros com cercas eletrificadas ou nos emboscam nas ruas de boa viagem. Ela, é também, terrivel nos barracos, nos ônibus, nas salas de aula e nas ruas escuras dos bairros populares.

Eu só tenho perguntas, um coração indignado e uma prática cotidiana de tentar fazer alguma coisa que levante a bandeira da justiça, da solidariedade, da inclusão. Tenho também dois carros para dar ré e uma cerca elétrica no meu prédio. Mas até quando?

Inalda

9.3.07

Doutor Julio se orgulharia

George Bush não deve saber. Nem precisa. Afinal, nunca ouvi falar que o Sindaçucar esteja realmente investindo pesado em alguma tecnologia para melhorar a qualidade dos nossos biocombustíveis ou se está continua sendo bancado por gente que nem mesmo respeita os mínimos direitos trabalhistas (para não falar do Direito de Propriedade). Mas fico pensando como meu bisavô se orgulharia do nosso quadro político atual. O líder do Governo na Câmara Federal é José Mucio Monteiro. Na Assembléia Legislativa, João Fernando Coutinho foi para um posto mais importante, mas exerce a mesma função, além da Primeira Secretaria. Além disso, o governador Eduardo Campos ainda premiou a Agroindústria de Vitória de Santo Antão com o posto de procurador geral do Ministério Público de Pernambuco. A Esquerda são os usineiros? Ou os usineiros são a Esquerda? Sem preconceitos. Mas o quadro deve revelar alguma coisa.

25.2.07

Da partida

Os amigos agora partem. São Paulo, França, Rio, Floripa, Los Angeles.

Simone cuida do teu marido, porque eu queria estar junto.

Mateus compra uns temperinhos para a gente inaugurar tua panela nova.

Amelia guarda três euros para eu tomar um vinho contigo. Melhor do que cachaça é um vinho francês.

Rafa gasta os teus porque tua mulher e você merecem aproveitar essa nova janela até a última ponta.

Helena chegou rapidinho e se foi, deixou um menino bonito aqui (corre atrás!)

Daniel me deu a grande felicidade do ano. O êxtase.

Que é que eu dou em troca Lu? Vale tudo!

De Maria Rosa eu só senti o cheiro, atrás do sorriso de Paulinho.

Quem fica em Recife vai sentindo os canais se fecharem. Criam-se outros esperam os otimistas. O Capibaribe continua cheio, mas agora as garrafas pet bóiam, sobre uma água-óleo que enfrentamos com coragem para achar a felicidade. Está difícil achar um peixe? Então os que eu acho guardo para desfrutar com um bom vinho. Se não foi assim, será.

Bom os amigos aparecerem. Esperados como uma manga que amadurece ao lado da minha janela em Casa Forte. Ou de repente como um peixe que fisga um anzol enquanto eu sonho com uma nova paisagem.

Melhor que a distância é o encontro. Melhor que receber, só mesmo levar a cachaça para tomar junto com quem amo. E guardar as histórias para contar na hora certa.

Um beijo para os que não vieram, um carinho maior ainda para os que conseguiram dividir as tristezas e alegrias na orgia carnavalesca.

13.2.07

Pintar e fazer amor



Não sou muito de cinema francês. Mas esse filme me surpreendeu. É a obra de arte sobre o suingue, assim como Cidade de Deus é o melhor que existe sobre as favelas cariocas. Qualquer coisa que envolva troca de casais ia me interessar? Tudo bem faz algum sentido, mas esse filme superou minhas expectativas. Encontrei uma menina na entrada antes de ver o filme, ela resumiu muito bem: sutil.

A trilha sonora e o cenário fazem o filme. O interior francês é tão bonito quanto na realidade. E os personagens são franceses sem a realíssima arrogância, que estragaria bastante um filme que se realiza pela sua simplicidade e humanidade no tratamento do sexo e das paixões. Por sinal, o sexo é mais insinuado que explícito, mas uma cena de sexo oral é de deixar qualquer mulher molhadinha (os homens nem se falam, são muito mais vulneráveis ao apelo visual).

O ritmo é simplesmente perfeito. Tem umas músicas que entram muito bem no contexto. Mas não pensem que é um musical. Ótimas para tirar o olho da tela e ficar olhando para uma mulher linda. Ótimas para quem quer realmente se apaixonar, é só deixar o som entrar pelos seus ouvidos e olhar para o seu objeto de desejo. O problema vai ser depois esquecer essa menina. Mas para isso existe o tempo. E o Carnaval para os apressados.

No Jornal do Commercio dizia que é uma comédia? Realmente não entendi. Talvez o cara que fez a classificação seja muito mal resolvido sexualmente. Mas, pelo menos na sessão que assisti, não ouvi ninguém rindo em momento algum do filme. É um drama, com muito bom humor. Só que tende a mostrar a troca de casais muito mais pelo lado positivo e deixa apenas transparecer as dificuldades de quem está vivendo aquelas situações. Ou seja, é um filme realmente que defende aquilo que mostra.

Julio me perguntou se eu tinha achado melhor do que Amelie Poulain? Guarda semelhanças.

São filmes que preenchem vários espaços de satisfação: visual, trilha sonora, personagens fortes. Também são muito importantes como registros de dois locais franceses, um em Paris e outro no interior. Mas o que mais os aproxima é uma atmosfera positiva que lhe deixa mais feliz ao fim da sessão. Não que o mundo pareça ser um mar de rosas. Os dois filmes querem lhe mostrar bons jeitos de enfrentar as tormentas.

Amelie Poulain faz isso com uma atriz realmente linda, vestindo um personagem muito forte. Pintar e fazer amor é um pouco menos conto de fadas. Tem atores absolutamente comuns, em idades absolutamente normais (nada de crianças, velhinhos ou jovens). E mesmo sem esses apelos, consegue envolver e emocionar. Muito pela qualidade do elenco.

Só acho mais difícil convenser as pessoas de que trocar de parceiro de vez em quando pode dar certo, mesmo dentro das regras que os casais se impõem ali no filme. Mas até essa ambiguidade parece ter sido muito bem estudada. Daria um ótimo romance, cheio de nuances, ficou melhor ainda como filme.

9.2.07

Rariú, cafuçu, come lick my ass!

A festa do I love cafuçu traz todo um debate da nova configuração do relacionamento entre homens e mulheres no Brasil à tona.

Homens pagam R$5,00, mulheres R$8,00. Quer dizer que nesse grupinho específico de mulheres recifenses elas é que estão correndo atrás? Bem assim não é não, mas pelo menos elas gostam de ostentar esse discurso da falta de homens interessantes e do excesso de mulheres bonitas. Eu acho que elas estão certas. No mínimo, isso é um bom argumento para que todo mundo veja com extrema naturalidade duas meninas se pegando onde bem entenderem. Essa moda já está até demodé (sei lá como se escreve isso?).

Tem uma amiga minha que vive dizendo que o mundo é homossexual. Na vontade de me pegar, claro! Mas nessa eu não caio mais. Respondo que isso minha mãe já diz há mais de 20 anos. Se lembram? Década de 60 atrazada, foi vivida no início dos anos 80 com separações que resultaram em trocas de casais e muita putaria em toda a geração que lutou (ou nem tanto) contra a Ditadura Militar em Pernambuco. É claro, fica muito mais fácil quando ninguém vai ficar olhando para a sua cara com ar de estranhamento.

Salve a menina que tem a cabeça aberta de dizer que é massa se agarrar com um casal de gays. Conheço poucas mulheres assim. E é evidente que disconheço um homem que não tenha pelo menos batido um zilhão de punhetas pensando em duas mulheres. Nas minhas, por sinal, é sempre suruba. O peito dela, a bundinha daquela, o beijo na boca do meu amor. Agora, difícil mesmo é o cara ter o desprendimento de quando chega a hora da relação precisar ser revirada ficar por cima enquanto sua mulher leva rola por baixo. Mas isso para a mulher também não é simples não, ver o cara chupando uma outra buceta.

Na minha última saída com Mateus e Simone lembro de ter falado que para não estranhar um beijo na boca entre homens o casal tinha que ser muuuuuito bonito. Para tirar onda (ou porque estavam afim e nem tinham ouvido o meu discurso), um casal de amigos fez questão de dar um beijo na boca bem ali. Sentadinhos no bar, na frente dos casaizinhos de homens e mulheres. Achei bonitinho o enfrentamento. Mas, sendo honesto, me causou estranhamento mesmo. E isso está longe de ser um discurso sexista, é só uma confissão de enrustido (dava um livro sátira esse termo!).

Uma outra amiga me pergunta se vou de cafuçu para a festa. Minha resposta imediata foi que eu já sou um cafuçu. Pensando na minha grosseria, gostar de comer feijoada, churrasco, de beber muita cerveja, falar alto, ser torcedor do Sport Club do Recife, conhecer e passar para as futuras gerações a história de Ademir Menezes e Juninho Pernambucano, ter uma barriga corpulenta (mesmo que em processo de redução avançada), olhar para a bunda das gatinhas quando elas passam igual a um carioca. Ela me respondeu que eu era um cara sensível. Brochei na hora. Quem quer ser um cara sensível quando as mulheres renegam o papel que era delas? Ou que pelo menos elas vestiam durante parte de suas vidas.

Ser um cara sensível é tão infeliz quanto fazer política honestamente no Brasil? Acho que não. Ainda dá para pegar muita gente com esse discurso. Afinal, você não precisa de 30 mil votos para se eleger um cidadão feliz no amor ou pelo menos no sexo (para ficarmos numa área mais comum a nós mortais). E ai surge outra questão trazida pela festa. No discurso do I love cafuçu o que vale mesmo para o cara ser denominado cafuçu não é chupar osso, comer com as mãos, ou fazer concurso para ver quem bebe mais cachaça: é a pauduressência.

Realmente, fist fucking deve ser bom, mas a maioria dos mortais gosta mesmo é de pau duro e buceta molhada (ou cuzinho com KY). Claro que tudo é essencial na hora H. Língua, dedos, boca, nariz, nuca, peito, tatuagem, meu irmão fala até em cutuvelo? Essa eu ainda queria entender. Mas o meu é ressecado, não tem graça nenhuma, vou ver se pondo um pouquinho de hidratante alguém se interessa nele. Tá vendo, nem no Carnaval consigo colocar a fantasia de cafuçu. E tem dois shows de Ney Matogrosso esse fim de semana. Mas esse papel é mais complicado ainda de exercer. A gente vai levando.

E viva a rima!

8.2.07

Para auto-contemplação

Muribeca
Marcelino Freire

Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho? E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa? Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa? O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor. Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro? Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro - o moço tá servido? A moça?Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado. Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho. Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. Eles dissem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.

6.2.07

Dois pesos e duas medidas

DP - VIDA URBANA - 6-2-2007

O estrago

Violência prejudica imagem do estado às vésperas do carnaval | O saldo da violência durante a prévia do Balança Rolha vai além dos danos materiais (depredação de patrimônio público) e a pessoas (20 feridos). A imagem do estado foi atingida pela repercussão negativa na imprensa nacional. Ontem foi o dia do mea-culpa.

DP - JOAO ALBERTO - 5-2-2007

No trio

Bronzeadíssima, usando short jeans e top, Ivete Sangalo abriu, ontem, em clima de altíssimo astral, seu desfile no Balança Rolha, na Avenida Boa Viagem, com uma declaração de amor à nossa cidade. A primeira música que cantou foi Voltei Recife. O desfile do bloco foi um extraordinário sucesso, reunindo maios de 500 mil pessoas. Num dos trios, Eduardo Campos, Carlos Wilson e André Campos.

Digo uma coisa: fazer jornal de casa nem sempre dá certo.

2.2.07

Eu acho é pouco mesmo



Não gosto de Carnaval. Nunca gostei. Já vim não sei quantas vezes ficar em Olinda com minha mãe. Sempre foi péssimo. Os adultos querendo me levar para ver os blocos. E os pirralhos com as brincadeiras idiotas deles. Nunca gostei de brincar de boneco, meu negócio é futebol, vôlei, basquete. Na pior das hipóteses, botão.

Só me restava ficar assistindo aos desfiles das escolas de samba do Rio. Pelo menos tem muita mulher bonita.

Esse ano até que estava bom, mas no último dia meu pai resolveu me trazer com ele. Quer dizer, acho que ele não arrumou com quem me deixar. Por isso, acabei tendo que vir a reboque e ele está enchendo a cara. Acabou a garrafinha de whisky e já está comprando uma latinha de cerveja. Isso não vai dar certo.

- Eu acho é pouco. Já passou por aqui?

- Passou agorinha. Deve estar no Eufrasio Barbosa. Corre que vocês pegam ele na primeira parada.

- Vamos lá filho! Quero ver se esse futebol está dando resultado.

Carreira! Papai é meio barrigudo, mas ele sempre corre na Jaqueira. Eu que não vou dizer que estou ficando cansado. Para quando for no parque ele ficar me desafiando. "Quero ver se você consegue fazer cooper por um quilômetro sem parar". Eu gosto de correr rápido e quando canso continuo andando. E daí?!

Por que os blocos não saem aqui embaixo. Olinda tem dezenas de ruas largas e arborizadas, mas elas ficam vazias enquanto lá em cima é o maior aperto. Aquele cheiro de xixi, gente suada roçando no nosso corpo e imagina para uma criança de 11 anos o calor e a agonia de ficar ali olhando para as bundas das pessoas. Sem conseguir ver para onde está indo.

"Eu vou esse ano pra lua, não é privilégio, foguete já tem..."

Sempre troco a letra dessa música. Mas adoro ela. Já me disseram que meu pai cantava ela para eu ir dormir quando era pequeno. Bem que era bom ir para a lua. Pelo menos não ia ter que ficar aqui e aguentar os adultos que querem me fazer gostar do Carnaval. Nem todo mundo gosta de bagunça.

Papai acha que essa orquestra é a do Eu acho é pouco. Até parece que dá para reconhecer pela música, como se só esse bloco tivesse um saxofone. Ele pode entender muito de jazz, mas aqui em Olinda durante o Carnaval para cada rua tem uns três blocos sempre tocando os mesmos frevos.

Capaz dele estar certo mesmo, tem um monte de gente de vermelho e amarelo perto daquela esquina. Essas cores eu me lembro. Adoro a camisa que minha irmã me deu. Tem os nomes de um bocado de gente conhecida. Alguns amigos do meu pai e da minha mãe.

Mas acho que não. O bloco deve ter passado por aqui, mas agora está tocando é samba. Isso sim é Carnaval. Deve ser uma escola de samba muito boa. Mas todo mundo está com as cores do bloco, deve ter acabado e o pessoal ficou para ouvir essa bateria. Que bateria!

Papai está cheirando um negócio na camisa.

- Vamos filho que é o Eu acho é pouco mesmo. Toma aqui para você. Mas só cheira pelo nariz.

Eita que perfume delicioso. Deixa a gente leve. Com esse negócio eu ganho fácil os cem metros rasos das Olimpíadas de Barcelona. E olha que eu só vou ter 14 anos. Estou ouvindo uns sininhos nos meus ouvidos. Devo estar ficando bêbado de tanto tomar gole da cerveja das pessoas.

Que menina linda sambando. Poxa, ela está aqui sozinha. Acho que ela deve ter minha idade. Talvez um pouco mais velha, acho que não. É muito pequenininha. Linda. Eu amo Helena e sempre vou amar. Mas nunca tinha visto uma Maria tão bonita.

Como samba bonito. Tem uns cachinhos de princesa no cabelo. Um sorriso corajoso de segurança. Fico sonhando e imaginando em fazer dela a minha namorada. Queria tanto ter coragem para falar com ela. Mas essa minha timidez...

Está ficando na cara. Não consigo tirar os olhos dessa menina. Também ela tão branquinha, sambando no meio desses negros enormes. Acho que todo mundo está olhando para ela. Ou será que só sou eu? Vou tentar virar meu olho para outro canto.

O bêbado e a equilibrista. Nome engraçado desse bar e tem uns desenhos super bonitos. Queria mesmo um amendoim ou uma batata frita, essa corridinha me deixou com fome. Mas lá vem Graça com um sarapatel.

- Quero não. Não gosto.

- E uma tapioca?

- Tá bom...

Nunca tinha visto uma tapioca tão grande. Acho que essa mulher errou na quantidade de coco e queijo. Não dá nem para fechar os dois lados. Bom para mim, estava morrendo de fome mesmo. Quase não aguento esperar ela fazer. Eita, não tinha nem notado que parou a batucada.

- Pai quero ir no banheiro.

- Faz ali mesmo na árvore.

Estou morrendo de vontade. Mas não aguento quando meu pai me diz isso. Será que ele não encherga que por isso fica o maior cheiro ruim na cidade? Por aqui deve ter algum banheiro. Vou por ali. Eita, está ficando escuro. Poxa, alguém devia ter vindo comigo. Vou voltar.

Ainda bem que voltei logo, a orquestra já está se organizando para sair de novo. O pessoal não ia gostar nada se perdessem o bloco por estarem me esperando. Mas vou ter que ceder e fazer xixi por aqui mesmo. Não estou me aguentando. Vou ali para trás que pelo menos ninguém vai ver minha pitoca.

"Olinda, quero cantar a ti essa canção, teus coqueirais, o teu sol, o teu mar, faz brilhar meu coração, de amor, a sonhar, salve Olinda sem igual, salve o teu Carnaval"

Essa música realmente eu adoro. Me lembro tanto de cantar no Instituto Capibaribe. Se o hino do colégio sempre me fez chorar, essa música sempre me abriu o coração. Pena que meus amigos não estão aqui para cantar comigo, próximo ano acho que vou chamar Rafa e Duda para virem comigo ver esse bloco.

Eita, parece que agora a gente vai subir para a Cidade Alta. Caramba, já tinha esquecido como estou cansado. E só estou vendo ladeira na minha frente. Quanta gente. E esse dragão ainda fica enchendo o saco. Poxa, leva esse negócio lá para frente para abrir caminho. Não custa nada.

Agora vai ter confusão. Tem duas turmas, uma quer subir e a outra quer ir por baixo. Caramba, essa ladeira é muito grande. Não estou aguentando mais. Tomara que já esteja acabando. Tomara que eu não tenha que subir. Tomara que meu pai se toque que estou morto.

- Criança sobe de ré!

Papai sobe a Ladeira da Misericórdia sambando. Eu segui o conselho dele. E ainda fui dos primeiros a chegar no Alto da Sé. Fiquei esperando lá de cima ver o bloco passar, mas onde está aquela menina tão linda. Por aqui não está. Será que foi embora? Estava mesmo tarde para ela ficar sozinha aqui por Olinda.

Agora é descida. Eu não estou nem mais sentindo minhas pernas de tão cansado. Nunca tinha visto esta vista do Recife, no horizonte. E uma menina toda sorridente. Como ela dança. Será que é a menina dos cachinhos? Fico olhando para ela, mas logo encontro o meu sonho. Cabelos lisos cor de Eu acho é pouco, pernas longas e magras, parece uma mulher, num corpo de criança.

O bloco aperta o passo. E eu perco a minha paixão. Quem será que riu para mim? Será que alguém olhou para mim?

A roda de samba volta a se formar, é a segunda parada do bloco.

- Vamos filho. Graça tem que botar teu irmão para dormir.

Logo agora que eu encontrei a menina que estava procurando. Caramba, essa menina é muito mais bonita que Helena. Um peitinho de mulher. Acho que vi o sutiã dela quando estava frevando, com a camisa toda molhada. A pele tão branquinha de anjo.

Estação final do número 1989.

Era o começo dos meus carnavais.

30.1.07

Juca e Chico

Eles são irmãos. Não que sejam filhos da mesma mãe. Os pais pouco se
conhecem. Eles se escolheram empinando pipa, jogando bola e fugindo da hora
de voltar para casa.

No Poço da Panela, toda criança tem seu companheiro. A diferença deles dois
é que puderam escolher a quem ter como irmão. E eles se divertem com isso.

Quando a mãe de Juca briga com ele, os dois podem se esconder na casa de
Chico. Além disso, nem precisaram nascer gêmeos para serem da mesma idade.

As roupas de um quase sempre cabem no outro. Os dois aprenderam a ler
juntos. E são ótimos para dar coragem ao outro quando escurece e eles ainda
não voltaram para casa.

Chico gosta de brincar com o amigo porque Juca enfrenta todos os desafios.
Ele sempre tem medo de atravessar o Capibaribe e, quando vai, acaba
colocando a culpa no amigo.

Juca gosta de correr perigo. Joga bola com os mais velhos. Adora espiar a
irmã dos amigos trocando de roupa. E, não contem para ninguém, ele adorou a
vez que teve de pular no rio para pegar uma bola.

Na hora que eles fazem besteira, é sempre Chico que aparece para levar a
primeira reclamação. Depois, ele acaba colocando a culpa toda no colega. E
Juca se chateia, mas logo esquece.

Os pais deles adoram ver os meninos brincando. Também, é um alívio enorme
quando Juca desliga a TV e Chico consegue tirar a cara do video-game.

Até nessas horas os meninos gostam de estar juntos. O pai de Juca é o
primeiro a pedir para os dois irem brincar. "Desliga essa máquina de fazer
doido!"

As vezes eles até desligam. Mas, com certeza, não é por causa dos gritos que
levam. Os dois parecem que nem notam quando recebem uma reclamação.

A sorte também é que não tem TV à cabo na casa dos meninos. Assim, quando
começa um programa chato eles acabam se lembrando de ir para a rua brincar.

Ali por perto, o chute de direita de Juca é conhecido de todos os
maloqueiros. E ele se orgulha quando é escolhido para jogar no time dos mais
velhos.

As brincadeiras de Chico são mais com o pessoal da mesma idade dele. Viaja
em histórias que ele mesmo cria, tem um enorme arsenal de piadas e gosta de
inventar uns jogos malucos.

Mas ele também adora jogar baralho com os mais velhos. Qualquer dia, vai
estar em Seu Vital enfrentando os cachaceiros de plantão.

Tomara que ele aproveite um dos momentos em que Juca esteja brincando na
frente da igreja, para quando um dos dois se meter em encrenca o outro estar
por perto para ajudar.

Os pais de Chico se separaram. E vai demorar para quererem ter outros
filhos. Os pais de Juca estão bem casados. Mas pensam que já passaram da
idade para fazer mais uma criança.

Restou para esses dois a opção de virarem irmãos de verdade. Parece que não
foi tão ruim assim. Pelo menos por enquanto, eles vivem uma infância que
quase não existe mais.

Tomara que eles aproveitem mesmo. Quando passar, não volta mais.

25.1.07

Ao meu amigo candidato

Faz tempo que nossas vidas se cruzam. As vezes como companheiros leais. Outras fomos também rivais disfarçados. Mas o respeito sempre esteve acima das nossas divergências. Quando finalmente decido que está na hora de me afastar da política (ou pelo menos adotar uma outra perspectiva), ele volta a pensar em participar. Sempre disse a ele que talento não lhe faltava, aliás sobra. O que houver de ausência de experiência poderá ser utilizado como um espaço de crescimento. Por sinal, não há nada nesse País que me deixe mais triste do que a falta de coragem da juventude para enfrentar a política de peito aberto. Todo o descrédito dos parlamentares e gestores públicos em geral torna ainda mais difícil acreditar em um projeto coletivo encabeçado por uma pessoa, representando um grupo. Mas isso cria um desafio ainda mais emocionante de ser tocado.

Por que então não estou gostando da idéia de finalmente ver meu amigo candidato? Lembro da primeira aula de minha pós-graduação, na FGV, quando a professora falava sobre o mercado das ONGs. Ela fez toda uma mercantilização dos processos, deixou que os alunos fossem se interessando pela coisa, acreditando que poderiam ganhar muito dinheiro com aquela história e arrematou mostrando com muita convicção que daquela forma todos os nossos planos estavam desvirtuados. Estávamos partindo de um projeto pessoal, quando a lógica (inclusive constitucional) das entidades sem fins lucrativos é de que tenham como princípio o bem coletivo. Tudo isso para que a gente se lembrasse na frente, anos depois, quando estivéssemos vivendo uma situação limite, precisando aprovar algum projeto, que todo esse esforço precisa estar ainda balizado por conceitos éticos (por mais genérico que isso possa parecer).

Estava quase deixando de acreditar na política. O sonho do PT, um partido de massas que discutia suas propostas e crescia coletivamente, acabou-se antes para mim do que para a maioria dos brasileiros. Para meu amigo talvez tenha sido um pouco mais cedo ainda. Mas, antes que eu deixasse de acreditar por completo, conheci uma realidade muito menos utópica, mas também bastante efetiva na luta por justiça social. As melhores frases que ouvi de Roberto Leandro foram as dele se justificando por realizar atividades que não lhe renderiam nenhum voto: "A gente passa o dia com a cabeça quente na Fundac, vai para o rádio e sabe que o povo pensa que estamos defendendo criminosos, então vamos comer muito bem que é para valorizar o nosso dia". Ele me disse em Caruaru, depois de denunciar um juiz que tinha mandado para um lugar horrível uma criança de 12 anos, acusada de roubar alguns potes de iogurte.

É difícil conciliar a tarefa de ser um representante da população com a de ter de conquistar votos. O que mais fiquei feliz em conhecer Roberto Leandro foi saber que existem políticos que realmente recebem o salário e pensam que têm que justificar aquele dinheiro todo com trabalho, suor. Quando teve tiro na Praça do Carmo ele foi para cima, "é meu dever como presidente da Comissão de Defesa da Cidadania". Quando apanhou de policiais por estar querendo testemunhar uma desocupação de terras ainda teve de aguentar uma cobertura jornalística muito pequena. Reclamou comigo pelo menos, com certeza, mas ele não esperava ser agredido quando resolveu que iria passar da barreira organizada pela PM. E em sua despedida da Assembléia Legislativa ainda teve que ouvir que era um cara chato, quando na verdade é uma ótima companhia para uma mesa de bar, porque enfrentou privilégios como o jetom.

Acabou que esse deputado estadual não se reelegeu. Vai continuar sua trajetória política de alguma outra forma, pelo menos espero. Mas, para mim, a lição dele vai ficar. Não adianta gerar um projeto dos nossos próprios umbigos. Mas precisamos valorizar e defender nossas perspectivas. A dura tarefa de exercer a representação política é uma missão que precisa ser encarada e enfrentada pela nossa geração. Esta ai Chico Alencar a me mostrar um mandato que tem na internet uma ferramenta contínua de geração e alimentação de demandas e utopias. Só para citar um exemplo de novidade no campo da política brasileira. Então, vai realmente encarar a tua sina? Pare. Chame os amigos. Tenha idéias. Realize. A sombra é grande demais para fugir totalmente dela, mas é preciso gerar novos conceitos que ultrapassem os limites até agora testados. Assim, talvez, você consiga conciliar a prática com a utopia.

Para desistir do sonho, é melhor nem entrar.

19.1.07

O direito de sonhar

Marcelo Campello apareceu de repente. O dia não era de Mombojó, muito menos de Del Rey, pedi para ele o CD Projeções. Insone desde criança, não acreditei que realmente fosse dormir quando ele falou: "O maior elogio que vocês podem fazer ao meu disco é caírem no sono antes da quinta faixa". Não é que eu realizei. E justo na hora que pensava ter perdido o direito de sonhar. É ótimo para escrever também, suficientemente lento para se pensar na próxima linha, mas com uma beleza tranquila que não deixa que os sentimentos atrapalhem o trabalho árduo da escrita. Para mim, o CD de Marcelo supera as expectativas, talvez até mesmo do compositor, que encontrou um jeito suave e autoral de fazer música de qualidade.

20.12.06

Pensamentos diversos

Fico lendo a minha bibliografia do Mestrado e misturando as coisas na minha cabeça. Será que Jampa já leu Roberto Schwarz? Raul Jungman é um exemplo tão claro do burguês oportunista, que conhece a realidade brasileira. Me impressiono como as elocubrações da minha mãe sobre a história do Nordeste, e do Brasil, batem exatamente com estudos de Caio Prado Junior e Florestan Fernandes. Talvez ela já tenha lido e apenas os reinterprete em linguagem absolutamente popular? Só sei que facilita bastante o entendimento do que estou lendo o fato de já ter ouvido um bucado de coisas da boca da minha mãe.

Bem, realmente me faz bem ir à fonte dos intérpretes atuais do marxismo à brasileira. Até porque não sei bem onde me enquadro. Denis me sugeriu falar em dialética no meu projeto de pesquisa. Aquilo me soou meio antigo, ou talvez eu tenha sentido minha incapacidade de fazer uma reinterpretação disso de forma que me parecesse verdadeiro. Coloquei algumas palavras do vocabulário marxista (aquelas bem antigas mesmo, que Carol critica na monografia dela sobre o jornal do Sindicato dos Bancários), mas acabei sem fazer a explicação formal da coisa. E espero que isso não me prejudique.

Fui conversar com um amigo meu que também está fazendo a seleção. Ele veio me dizer que Foucault era pós-moderno. Compliquei minha cabeça. Para mim, que tenho em Foucault um dos poucos teóricos que li e gostei, o cara é um marxista que embasou muito do que os pós-modernos viriam a escrever depois. Lógico, minha bibliografia foi basicamente voltada para a Comunicação e se eu realmente tivesse chegado ao capítulo da Escola de Frankfurt no meu livro de Teoria da Comunicação minha colocação no concurso da Transpetro seria um pouco melhor. Mas pelo menos passei e pelo que vejo ninguém está sendo chamado mesmo.

Meio chato o período longo da seleção. Entreguei o projeto em dezembro, para isso estava estudando desde outubro (novembro, na verdade), mas a prova só será no meio de janeiro e o resultado só sai em fevereiro. Enquanto isso Rodolfo (primeiro lugar geral foi pra fuder!) e Mariana já fizeram inscrição, entregaram projetos, fizeram as provas e os dois foram aprovados (em Direito e Comunicação). Vou ter que tomar uma cachaça com os dois antes de passar na minha seleção. Pelo menos, posso chamar Fernando, mas a gente vai ter bem menos tempo de férias que o casal 20.

Bem, o que me incomodou mesmo esta semana. Aumento de 90,7% nos salários dos deputados. Raul Jungman como vice-líder do PPS vota a favor. E depois a imprensa pernambucana passa uma semana dando voz a ele porque está prometendo devolver o dinheiro. Ahn? A única vez que foi citado que ele votou a favor foi no blog do JC. Mais uma vez a Internet se mostra um meio de comunicação fuderoso. A imprensa é uma merda mesmo. Viciada. Comprada. Vence quem sabe se aproveitar. Mas também é triste saber que a maioria mal lê as linhas. Muito menos as entrelinhas.

6.12.06

Diario Oficial e gastos indevidos

Fico feliz toda vez que acredito existirem jornalistas que lêem o Diario Oficial. O blog do JC fez uma bela denúncia sobre a feia decoração natalina do Recife.

Me lembro, quando entrei no JC, como Alberto Lima dava furo quase toda semana porque só ele lia com cuidado os Diario Oficial (da Prefeitura e do Estado). Infelizmente, a vidinha de jornalista ganhando merreca não deu para o cara e ele, segundo me contam, está trabalhando no Itamaraty ou fazendo Instituto Rio Branco - não lembro bem.

Venho a algumas semanas percebendo a feiura da decoração. Fitinhas nas cores dos Estados Unidos. -Isso não vai dar certo. Vai ficar tudo enlinhado com o fio. Vai desgastar rápido. Fora que é feio mesmo.

Olha que eu já critiquei a decoração do Carnaval, não faço mais. É todo ano a mesma pessoa que faz, mas faz com muita competência.

E não acredito que sejam gastos quase R$4 milhões para uma decoração de Carnaval, como foi essa do Natal. Além do mais, 120 mil para a concepção do projeto por José Pimentel. (?). Ele é decorador, designer, artista plástico, arquiteto, engenheiro ou tem uma equipe multidisciplinar que atue nessas áreas e colabore com ele na concepção dessa decoração?

Sempre há explicações. Os banheiros da praia eram caros, porque eram inquebráveis. Eu uso e vejo as torneiras vazando... Só porque é vizinho, vou falar que foi só a Prefeitura assumir as quadras de tênis da orla para o lugar começar a ficar destruído. Grades, redes. Até o povo que foi contratado para dar aula, e vivia lá, desapareceu.

No domingo que o menino Rafael morreu eu ia jogar tênis lá, por uma fatalidade não estava por ali. Podia ter visto. Podia estar menos deserto o lugar. Mas se as quadras ainda estivessem sendo controladas por João (um cara de lá, que tomou conta por muitos anos), com certeza o lugar estaria mais cheio de gente. E o perigo seria menor.

Pena que uma coisa que dava certo, foi estragada e ainda tem custos para o contribuite.

Agora, tem o outro lado. O cara podia passar o ano lendo Diario Oficial e as loucuras que Mendonça está fazendo antes de sair do Governo não iam deixar de ser censuradas. Uma pena, mas é a realidade.

5.12.06

A academia

Nunca gostei.

Mas a verdade é que as vezes a gente acaba mudando os caminhos da vida. De repente, eu me toco que o sonho de jogar três peladas por semana nunca se realiza. Ainda mais que eu queria ter uma de tênis, outra de basquete e a minha de futebol (a única que tenho frequentado realmente).

Tive o maior prazer em fazer meu projeto para o Mestrado em Serviço Social. E quantas vezes eu não entendi a vida de Jampa, Julia, Rafael... De repente, faz sentido para mim entrar nesse mundo. Minha explicação: a pessoa tem que ter um foco que lhe interesse bastante, para aguentar passar pela parte chata.

Sei lá, talvez o foco para Jampa seja o de fazer a vida dele em torno desse mundo. Para mim, é estudar a história da Muribeca. Com isso, acaba fazendo sentido estudar História Oral, Urbanismo, Avaliação de Projetos Sociais e tantas outras coisas que sozinhas me pareceriam chatíssimas.

É isso. Finalmente dei entrada, agora só resta estudar para não ficar no caminho.

17.11.06

Cazuza era burguês, mas era um puta poeta!

Marta me manda um e-mail sobre o dia do consumo solidário, organizado por Cleide Torres do Procon-Recife. Uma das pessoas a quem admiro muito por estar tentando fazer um trabalho, dentro daquela Prefeitura que tanto maltrata os seus funcionários. Aqui do lado, no Sítio da Trindade, se eu esticar o pescoço sou capaz de filar uma aula de Jacaré, ensinando o pessoal a reciclar com inteligência.

Vou ver se passo lá. É que estou ocupado, com tanta coisa...

- Cozinhar uma carne em fogo lento, deixar o molho bem grosso, colocar uns legumes bem frescos e tomar com um pouco de vinho.

- Acordar minha namorada no meio da noite para ela dividir comigo o momento de magia culinária, e ter o prazer sádico de vê-la sem ter coragem de reclamar daquela sacanagem.

- Servir para Chico o meu nem tão simples refogado e fazer com que ele assuma que gosta, mesmo preferindo carne, arroz, feijão e purê.

- Depois cozinhar carne, arroz e purê e ouvir de meu filho que aquela comida é a melhor do mundo. E ter certeza que os publicitários do Sazon são verdadeiros poetas.

- Rir da menina que tem nojo porque estou comendo as folhinhas do meu manjericão, mas mesmo assim parar de arrancá-las, afinal ele está tão bem tratado ali na janela.

- Ir andando na feira para comprar uma plantinha cheirosa escolhida em parceria com o pirralho. E regar quase diariamente até o meu mandacaru, porque até os brutos gostam de carinho.

- Ouvir as mesmas músicas de sempre, sem ter ninguém para reclamar que são as mesmas músicas de sempre. E ainda poder botar no repeat um disco francês que estava esquecido.

- Ler de manhã, trabalhar domingo à noite, cozinhar de madrugada, tomar um banho frio ou bem quente. Receber uma visita inesperada.

Millôr Fernandes comprou seu apartamento em um prédio de quatro andares: "Num prédio dessa altura, mais o térreo com os pilotis e mesmo que se more no último andar pode-se ler o preço dos picolés da carrocinha da Kibon na calçada, admirar o jogo de quadris do broto que atravessa a rua ou chamar o amolador de facas que passa tocando "Cidade Maravilhosa", descreveu Ruy Castro.

Bem, ainda não moro em Ipanema. Meu bairro já foi destruído pelo vil metal e pelos bate-estacas opulentos, assim como o de Millor, mas por sorte eu acordo com os passarinhos do Sítio da Trindade. Cantando numa maravilhosa desordem. Algumas crianças ainda brincam de bola aqui em baixo do prédio. O espaço curto é bom para desenvolver habilidade, diria o otimista. E, se não vejo as gatas das praias do Rio, pelo menos ouço o movimento do povo de Casa Amarela, que cruza o parque para chegar em Casa Forte ou que mata o tempo namorando por ali mesmo.

Mas eu só queria mesmo repetir essa acusação: Eles podem construir uma vasta obra, destinada a confortar ou afligir o ser humano. Surge então um joão-da-costa e autoriza uma obra de dezoito andares, que não conforta ninguém e aflige muito mais.

13.11.06

Conciliação, nem a pau!

Eu fico vendo o Santa Cruz. O time recebeu verba de Primeira Divisão, teve público bom até a metade do campeonato, pagou salários de time de segunda e mesmo assim está com três meses de salários atrasados. Além disso, deixou irem em péssima hora (nada de embora) dois bons jogadores (Rosembrik e Carlinhos Bala) e o técnico que leva agora o Sport para ocupar o lugar do Tricolor.

No momento da eleição, o novo candidato vai se sentar na mesa com o homem que é responsável por toda essa gestão desastrosa, que tem em suas costas o peso de denúncias graves de estar desviando dinheiro do clube. Eu realmente não entendo. Para mim, se Edinho aceitar incluir gente dessa turma de Romerito vai estar assinando uma confissão de culpa. Tomara que não entre nessa.

Sempre simpatizei com Edinho. Cubria o Nautico quando ele era diretor de Futebol e fiz muito amadorismo quando ele era presidente da Federação de Futsal. Acho interessante o fato dele ser um profissional do esporte, e não um simpatizante do time. Mas sei, por exemplo, que muitos o responsabilizam pela decadência do futsal pernambucano pós-Votorantim.

Precisa ter respaldo e que os tricolores estejam no pé dele participando da nova gestão. Eu mesmo sou contra esse tipo de conciliação. Na Política é que esse tipo de coisa mais acontece. Ainda bem que não vai acontecer aqui para o meu lado, porque tive medo disso. Não dá para sofrer o tempo todo na mão do cara e depois ainda baixar a cabeça.

31.10.06

El Metodo

Cinema argentino para mim é algo que tem agradado sempre. Já tinha ido para os dois filmes anteriores de Marcelo Pyneiro então minha expectativa era grande, porque gostei bastante de Plata Quemada e Kamtchatka é um dos meus preferidos na safra atual de cinema latino-americano.

Esse terceiro também é bem interessante. Nem senti falta de Buenos Aires (que me fez gostar até de um documentário em estilo iraniano sobre a vida de Jorge Luiz Borges), talvez um pouco de Barcelona, onde o filme se passa. É que a história todinha se desenrola dentro de uma sala onde acontece uma seleção para um cargo de executivo de uma multi-nacional.

Sempre me achei craque de seleção. Na verdade, nunca cheguei à fase das entrevistas para não passar. Lembro bem da minha primeira vez tentando vaga em um jornal. A psicóloga me pergunta sobre um defeito meu: falei uns dez minutos sobre como vinha enfrentando minha timidez desde que resolvi entrar no curso de Jornalismo.

No fim ela ficou duvidando que eu realmente tinha sido tímido na vida. Mas isso já num clima descontraído que para mim teve um significado simples: estou dentro! Pena que poucos meses depois desisti da Folha de Pernambuco e pela primeira vez tive que enfrentar uma dinâmica de grupo.

Eram umas dez pessoas numa salinha do antigo prédio do Jornal do Commercio. Uma das profissionais espalhou no chão um monte de brinquedos e pediu para que cada um de nós escolhesse um e depois explicasse em que aquele objeto poderia representar um trecho da sua vida.

Me lembro que antes de pegar o barquinho que eu queria uma menina passou a mão nele, então fiquei com um carro de bombeiros. "Essa escadinha desse caminhão me faz pensar em todos os obstáculos que já enfrentei na minha vida, pois tenho aprendido a ir subindo devagar para conseguir atingir meus objetivos", estava sem inspiração, afinal tinha perdido a minha chance de dizer que gostava de dar bobeira, era preguiçoso e meu sonho era ficar balançando num barquinho.

Mas dei sorte, acabei passando por essa fase e sendo beneficiado pela baixa concorrência para a Editoria de Esportes. Entramos eu e Moisés, os únicos que tinham interesse nessa área, enquanto para o Caderno C tinham umas quatro pessoas disputando cada vaga.

Ironia do destino, a menina que pegou o meu barquinho se deu mal na seleção. "Peguei esse barco... Por que ele me lembra uma pessoa muito importante na minha vida... Meu avô... Ele morreu a apenas três meses...". Não era bem esse o tipo de resposta que as psicólogas estavam esperando e a pobrezinha acabou chorando do lado de fora da sala.

Acabei sem falar do filme. É bem mundo real. Apesar de uma cena de sexo meio surreal. Diz muito para quem vive o dia-a-dia de trabalho e ainda achei graça em umas situações muito caricatas. Mas seria uma merda se eu contasse ele todinho. O nome em português é horrível: O que você faria?

Eu, particularmente, demitiria a psicóloga e o tradutor que ela contratou.

30.10.06

Essa festa não é minha

A Praça de Casa Forte estava toda amarela ontem. Gostei da festa. Mas meu prazo de validade expirou exatamente às 17 horas. Quando alguém lembrou que estávamos cercados de prédios construídos na gestão João Paulo, que não haviam sido autorizados quando Roberto Magalhães era prefeito.

Chico ficou brincando na casa de Vaninha com um menino que disse que era a vitória dos primos dele. Falou com João Paulo e Eduardo Campos, depois eu fiz questão de apresentá-lo a um político de Primeira Divisão: Paulo Rubem.

Aqui em Pernambuco sempre se disse que não havia espaço para Terceira Via. Raul Jungman e Carlos Wilson foram alguns dos que sofreram derrotas e o próprio Eduardo Campos antecipou uma mudança no esquadro, quando o grupo de Miguel Arraes deu lugar ao grupo que era representado pelos deputados estaduais Paulo Rubem e João Paulo.

E agora, será que a tríade futebolística vai se repetir na política pernambucana? O Nautico deve ser a União por Pernambuco, grupo de poder aquisitivo alto que consegue se juntar para conquistar um objetivo comum, mesmo havendo grandes diferenças internas. O Sport só pode ser mesmo representado pelo grande balaio de gatos do PT em Pernambuco, só não vou dizer quem fica com o cargo de Luciano Bivar. O Santinha é evidentemente o grupo de Eduardo Campos, que domina as massas como ninguém e com seu populismo de olhos azuis vai levando pelas tabelas muito bem em termos eleitorais, agora vamos ver em termos administrativos.

O PT tem o Governo Federal, os cargos todos que são distribuídos no Estado e a Prefeitura do Recife. O PSB tem o Governo do Estado, a perspectiva de adesões de prefeitos e parlamentares e a facilidade de uma boa relação com o Governo Lula. A União por Pernambuco tem os três senadores (Jarbas - PMDB, Sergio Guerra - PSDB e Marco Maciel - PFL), cidades importantes como Caruaru (onde o prefeito teve mais sucesso eleitoral que João Paulo em 2006) e a perspectiva de conquistar o poder nacionalmente daqui a quatro anos.

Se Eduardo for esperto ele não abre espaço para o PT (João Paulo) continuar crescendo. Isto significa, cooptação das lideranças interioranas e investimento para reconquistar o apoio prioritário do PCdoB (Luciano Siqueira, Luciano Moura e Nelson Pereira devem ter apoio daqui a dois anos ou cargos nesse próximo Governo) e aproximação dos trabalhistas. Fora isso, ele pode investir nas alas que divergem do prefeito dentro do próprio PT (Campo Majoritário, Carlos Wilson e Paulo Rubem).

Daqui a quatro anos é que vamos poder dizer se ficou firmado um trio de grupos políticos mesmo. Ou se a vitória de Eduardo é o declínio de um dos outros dois grupos. O PT perdeu a cara ética e lutadora de quando Paulo Rubem e João Paulo eram deputados estaduais. O PFL está em declínio, mas Jarbas Vasconcelos ainda é a liderança mais importante da política pernambucana.

Minha aposta é que estamos exatamente na estaca zero. Morreram Cristina Tavares, Osvaldo Lima Filho e o PT está em processo de auto-destruição. Voltamos para o velho confronto dos coronéis de amarelo e de azul em Pernambuco. Em termos de construção política o horizonte é enorme. Quanto à disputa eleitoral é melhor se lembrar que faz tempo que Pernambuco não tem dois times na Primeira Divisão. E o Santinha está ai para mostrar que crescer de forma desordenada é a melhor receita para ganhar uma queda abrupta.

Candidatos não faltam para ocupar a cadeira da Cobrinha.

16.10.06

É HORA DE DEBATE COLETIVO E NÃO DE SILÊNCIO INDIVIDUAL

"Os resultados do primeiro turno destas eleições indicam uma guinada conservadora do eleitorado. A política econômica continuísta, as alianças fisiológicas e os graves desvios éticos e ideológicos de petistas e de altos funcionários do governo destruíram a esperança de um enorme contingente da população. E geraram o misto de revolta, apatia e ceticismo que explicam o retorno de figuras execráveis ao primeiro plano da política brasileira e a grave perda de espaço do voto de opinião.

Em uma campanha marcada por regras que não inibiram o uso das máquinas administrativas e o abuso do poder econômico, na qual os escândalos deslocaram o debate eleitoral para as páginas policiais, o Partido Socialismo e Liberdade empenhou-se em trazer à baila as grandes questões nacionais e em mostrar as graves ameaças que pesam atualmente sobre a classe trabalhadora e sobre a Nação."

... (www.chicoalencar.com.br)

Só para mostrar um pouco do sentimento de quem trabalha para fazer Política nesse País. Triste ouvir de Paulo Rubem a frase que ele me disse pouco antes de ver que estava eleito: "A gente vai ter que repensar tudo". É que mesmo os que venceram foram derrotados. Chico fica reclamando a derrota de Antonio Carlos Biscaia (do PT), Paulo a de Roberto Leandro, Ivan Valente também não conseguiu eleger nenhum estadual em São Paulo... Lá no Rio, Marcelo Freixo foi eleito para a Assembléia.

9.10.06

Problema de visão

É muito interessante ler por outro ângulo. Pena que quase ninguém faça isso. Hoje, saiu uma matéria de uma página no Diario de Pernambuco.

Bolsa Família - O risco da dependência.
Programa absorve mão-de-obra da cana.
Patrões apontam dificuldade de recrutar trabalhadores qualificados em plena safra.

Numa das fotos que ilustra a reportagem fica claro o trabalho leve de que se está falando. O trabalhador corta cana com todo o apetrecho que eu nunca vi em Pernambuco: óculos de proteção, chapéu, máscara, mangas compridas, luvas, caneleira...

Fiz a minha consultoria aqui a João Mathias, que já trabalhou em usinas e é natural do Município de Quipapá. Diz ele que existe alguma usina que oferece esses apetrechos. Só que ninguém aguenta trabalhar com tanto calor. Ainda mais, o principal problema do corte de cana, que são as amputações e ferimentos por conta de corte com o facão, não tem como se evitar.

Fui procurar na reportagem quanto as usinas estão pagando pelo trabalho. Infelizmente não tem. Tem toda a análise dos gastos com o bolsa-família, R$ 95 por beneficiado, mas ficou faltando a análise da questão trabalhista.

Tenho certeza que se pagassem alguma coisa que dignamente recompensasse não haveria falta de trabalhadores (na verdade, acho que se existe mesmo esse problema é localizado). Escravidão já passou.

Na Muribeca mesmo pode haver problema de falta de trabalhador porque catar lixo dá mais dinheiro do que cortar cana-de-açúcar, para a Usina Bulhões, que grila terras há alguns séculos por ali. O problema é o Lixão. Vamos deixar de jogar coisas fora.

Eu preciso de óculos, minha realidade está toda distorcida.

4.10.06

O voto da ignorância

A gente mora num puta País de gente que não tem acesso a informação. Não estou só falando da pobreza. É muito doido como o escândalo que envolve Mendonça e R$300 milhões ficou muito menos tempo na mídia do que qualquer assunto negativo que envolvesse Eduardo ou Humberto no Primeiro Turno. E não estou dando esse exemplo porque sou anti-PFL.

Eu fiz um projeto de graduação analisando a primeira eleição de João Paulo para a Prefeitura do Recife só para fazer uma pergunta a ele: "Prefeito. O PT tem usado o discurso crítico em relação à mídia desde o último debate envolvendo Collor e Lula, na eleição de 1989, quando o Jornal Nacional fez uma edição que claramente favoreceu o candidato alagoano. Por quê, ao ganhar na Justiça e provar que a Folha de Pernambuco cometeu crime eleitoral ao publicar pesquisa irregular do Instituto Opine, o senhor fez acordo para não cobrar a multa?"

A resposta dele pouco importa. Pois sair na tangente é especialidade de qualquer pessoa que passe pelo Executivo. Mas é muito triste ouvir dos jornalistas da Folha que ninguém pode falar mal do PT porque o jornal tem uma dívida gigante com o prefeito João Paulo. Assim, como é muito triste ninguém falar da Via Mangue, porque o projeto faraônico favorece os interesses econômicos de um dono de jornal e de um grande anunciante.

Ou seja, temos poucas informações mesmo. Mas nem procurar também é pau. No Primeiro Turno nem falo que eram muitas opções. Mas agora também no Segundo Turno anular um voto me parece coisa de gente irresponsável.

É claro que é difícil escolher entre Eduardo e Mendonça. Os dois têm péssimas influências no Judiciário e péssimos quadros no Legislativo. E um currículo que não ajuda muito. Entre Lula e Alckmin eu fico muito tranquilo para dizer que basta dizer que Lula acabou com a farra das privatizações e o País continua crescendo.

Já votei em Joaquim Magalhães uma vez, para não votar no velho Arraes. Mas dessa vez vou dar meu voto com carinho para Eduardo Campos. Pelo menos ele tem na bancada dele o melhor quadro da nova bancada da Assembléia Legislativa: Ceça Ribeiro. Vai ter influência do PT no seu governo, apesar de agora eu achar difícil que Roberto Leandro ou Paulo Rubem tenham qualquer poder.

Bem, vai ter que mostrar serviço. Mas se fizer um Governo de coalisão tem chance de se tornar uma figura importante na Política nacional. Nunca imaginei que Eduardo Campos podesse chegar ao Poder em Pernambuco. Mas está ai a chance. Outras pessoas podem achar Mendonça melhor e eu vou respeitar. Acho só uma incompetência muito grande a pessoa ter quatro anos para pensar e quando chega na urna anula o voto.

Gaste um dia se informando, mas me faça o favor de não votar nulo.

3.10.06

Rodolfo, a Casa de Tobias e o MST

Fui ontem para a defesa da monografia de Rodolfo. Um amigo e companheiro do gabinete de Roberto Leandro. Ele tinha me falado o tema no domingo: Direito de propriedade e o MST.

A Faculdade de Direito sempre me impressiona. Aquele prédio é lindo demais. Com uma pracinha no meio. É claro que aqueles estudantes ficam querendo ser caretinhas iguais aos professores. Acho que eu seguiria a tendência.

Até os professores mais progressistas fazem questão de tirar uma casquinha. A orientadora dele quando foi convidar Joba, que representava o MST, falou com bom humor.

- Essa casa tem pompa e ritual. A pompa eu acho desnecessária, mas o ritual quando dá para cumprir eu faço questão. Gostaria que Joba nesse momento venha para o meu lugar e assuma a presidência desta sessão.

Aquelas coisas simples que tornam uma coisa tão normal e cotidiana um pouco mais especial. Como quando Joba, ao final das explicações, levantou-se e pegou o chapéu que estava na mesa durante toda a defesa.

- Queria repetir com Rodolfo uma tradição que temos no MST para agradecer aquelas pessoas que comprovadamente demonstram um trabalho que venha a nos ajudar e engrandecer na luta pela conquista da Terra e por melhorias na condição de vida do nosso povo.

Ele colocou o chapéu e ficamos eu e Mariana do lado de cá quase a chorar.

Recebi um chapéu no dia em que a gente ajudou a acabar uma confusão entre os Sem-Terra e a PM, na marcha que iniciava o Fórum Social Brasileiro em Recife. Bem, não teve o mesmo significado. Ninguém havia me explicado nada.

Mas acabei me esquecendo de escrever o principal. Rodolfo é foda mesmo. Tirou 10. Até a professora que ficava criticando a invasão da Aracruz Celulose se rendeu ao discurso ideológico e apaixonado dele. E eu só fiquei pensando, cada geração tem o Zeca Cavalcanti que merece.

Da Casa de Tobias vai demorar a sair outra pessoa que me deixe com tanta vontade de ser advogado na vida.

Pastor Cleiton Collins

Tem uma reportagem no JC falando hoje sobre as pretensões do Pastor Cleiton Collins de sair candidato a prefeito de Jaboatão. Felizmente, ele não vai poder repetir a musiquinha triste que grudou na minha cabeça e mesmo depois de dias após o fim do guia eu ainda fico repetindo.

Na quinta passada, uma notinha no JC falou sobre esse fenômeno, mesmo sem o jornalista ter entendido o problema. Dizia que os protestantes tinham votos em lugares que ninguém imagina. Na eleição da Escola Recanto o resultado foi: Pastor Cleiton Collins - 134; Teresa Leitão - 13. Os outros ficaram com menos de 10 votos.

Só esse colunista não percebeu que deve ter sido a maior zona a eleição da Escola Recanto. A musiquinha fez a festa da pirralhada, que votou em peso para tirar onda. Não é que o fenômeno tenha se repetido na votação geral, mas teve um peso grande nos quase 90 mil votos que o Pastor teve.

Quando cheguei em Jaboatão domingo o cenário era o seguinte: as escolas cheias de gente, nenhuma propaganda por perto, exceto os santinhos que tinham sido jogados no chão no dia anterior por diversos candidatos. As pessoas me pediam o número dos candidatos do PT só de me ver com adesivo de Roberto Leandro.

O policiamento era pouco. Mas nem nossas lideranças estavam com os adesivos. Diziam estar com medo. Paulo Rubem nem fabricou. Os eleitores passavam procurando o número no meu peito. Duas vezes fui parado: 1 - Vou votar em Paulo e Roberto. Qual o número deles? 2- Sou PT desde criança. Qual o número de Renildo? Anota também o de Roberto Leandro para mim.

Só fiquei me lembrando de uma conversa que tive com uma jornalista duas semanas antes da eleição. Dizia que tínhamos duas músicas na campanha. Um frevo grudento e um forró bonito. E eu só decorava o frevo, apesar de tocar muito menos nos dois carros de som da campanha. Estava tudo errado.

Para terminar acabamos sem usar as musiquinhas no guia de TV. E ganhou o jingle que ficou na cabeça daquele povo. Também o fato do cara ser pastor deve ter funcionado para muita gente. Só me lembro desse número mesmo e ele deve ser honesto porque é crente...

Ps: Não vou ditar o jingle para tentar não jogar de novo essa praga na cabeça de ninguém.

2.10.06

Lula e Eduardo

Só para não deixar de falar. Vou votar e acho que eles se elegem. Mas não me representam. Foi melhor Humberto ter ficado de fora. Assim, o PSB continua com toda a força na campanha. Foi dos poucos bons resultados para o presidente, melhor que isso só a eleição da Bahia.

Ponderações eleitorais.

Paulo Rubem é um dos deputados federais menos votados que vão para o Congresso Nacional. Roberto Leandro por muito pouco ficou de fora e a Assembléia Legislativa fica ainda pior.

Quando eu saí da Prefeitura do Recife tomei como objetivo a eleição de ontem. Seria a chance de mostrar que o caminho (da extorsão, corrupção, manipulação e outros ãos) escolhido estava prejudicando o PT de Pernambuco. Ontem, ficou provado que eu estava errado. Eleitoralmente é muito melhor ser corrupto.

No começo do meu trabalho com Roberto Leandro achava insuportável o cuidado que ele tinha para criticar os adversários, e principalmente os próprios petistas. Cheguei a desconfiar que era um erro continuar lutando na merda e que havia uma chance em adotar outro partido. Mas tudo tem seus motivos.

Na derrota, eu tenho condições de olhar para o lado e dizer ainda bem que a gente ajudou a eleger Paulo Rubem. Ainda mais, porque isso mostra que é preciso um pouco de revolta mesmo para se fazer Política de forma séria. Não dá para enfrentar os fuzis, sem pelo menos fingir uma falta e de vez em quando dar um pontapé por trás.

Procuro olhar mais pelo lado positivo. Paulo Rubem foi eleito sem gastar nem um décimo do que qualquer outro candidato eleito deputado federal pelo PT. Eles não tinham adesivos nem para usar no dia da eleição. Circulei por Jaboatão toda, e não vi nada dele além dos santinhos que Roberto mandou fazer com o rosto dele.

Mesmo assim, foi o deputado mais votado naquele Município. Acredito que se a gente tivesse sabido usar a nova legislação teríamos ali garantido a eleição de Roberto. As pessoas me pediam o número de Paulo e Roberto quando eu estava na porta dos colégios eleitorais, porque eu era um dos poucos ali com adesivos deles.

Não vou nem falar muito das idéias que tive para utilizar nessa eleição. Mas a verdade é que a gente não acreditou que a nova legislação era pra valer. Estávamos muito bem até poucos dias atrás. E perdemos a eleição na semana passada e principalmente ontem.

A nova Legislação Eleitoral é boa. Venceu quem soube utiliza-la de forma inteligente. E quem ficou de fora precisa aprender a ouvir para poder vencer na próxima.

"A luta continua companheiro. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima", Roberto Leandro.

1.8.06

Mandra Brasa

Querem ler algo engraçado. Entrem no blog de Mandrey. www.mandrey.blogspot.com.

6.6.06

Perdi o texto

Faltam três dias para a Copa do Mundo. Parece aquele momento em que o cara se veste para finalmente sair com a paixão que estava guardada no fundo do armário sentimental. Eu já até perdi esse texto que estava quase todo feito. Mas mesmo assim vou escrever alguma coisa para não perder a viagem.

Fico com uma saudade danada do tempinho que trabalhei no JC, caderno de Esportes. Meus domingos de folga eram um verdadeiro tormento.

- Para de pensar no teu trabalho uma vez na vida!

É que sempre dei azar de folgar em dia de Clássico das Multidões.

Na Copa passada estava no Rio. Assisti quase todos os jogos do torneio em minha casa da Vila Isabel. Feliz tempo de desempregado. Acabou a competição, o Brasil ganhou e logo voltaram as angústias. Quando passou o primeiro turno da eleição desisti da minha empreitada carioca, foi mais fácil voltar para o Recife.

Tio Armando também estava no Rio. Teve o azar de não ser chamado para a cobertura no Japão e na Coréia. Ficou dirigindo o programa da SporTV do Rio de Janeiro mesmo. Tomara que dessa vez ele esteja comendo bem muito chucrute, afinal até Juninho Pernambucano está nessa Copa.

Tomara que ele tenha o direito de gritar Vasco quando o reizinho fizer mais um gol de falta. Ele foi o único flamenguista do mundo que me ligou para comemorar quando Juninho foi campeão pelo Vasco. Mas no Rio de Janeiro é muito mais difícil demonstrar essa paixão enrustida.

Promessas de 2006. Acho que nunca gostei tanto de um time do Brasil.

Não assistir jogo do Brasil na casa de Mateus. 98 bastou. E ainda deixou meu irmão Pedro sem gostar de futebol.

Não falar mais nenhuma vez que não me lembro da Copa de 82. Por que essa não é a Seleção que pretende substituir a de Zico e Falcão.

Assistir a final com Tuti. Por que a coisa mais bonita que me lembro do futebol é ver Tuti chorando na final de 1994.

É mais fácil isso do que ir para a casa de uns amigos, com Paulinho e Rosinha, lá na Urca.

A Copa de 90 acompanhei muito pouco. Estava em Gravatá. Lembro que reclamava da ausência de Romário e Bebeto, minha dupla de ataque dos sonhos.

De 86, lembro da tensão pré Brasil e França. Fiquei encolhidinho na varanda do quarto de mamãe, rezando para Careca fazer um golzinho. Só me lembro de voltar aquele lugarzinho no dia que meu pai morreu. Bem, não deve ser um bom lugar para fazer nenhum pedido a Deus. Ainda mais sendo ateu.

Toda Copa do Mundo eu sempre reclamo de alguma coisa na Seleção. A dupla de ataque devia ser Romário e Bebeto. O melhor meia de ligação do Brasil é Bismarck (tá, alguma vez eu tinha que estar errado). Edmundo está em melhor fase do que Ronaldinho, imagina que fiquei feliz quando vi o cara escalado no dia da final contra a França. Mas nessa Copa só torço para Juninho virar titular.