2.9.12

A responsabilidade do ciclista e do poder público na polêmica do binário de Parnamirim


Estava almoçando com um amigo e ele me disse uma frase que achei interessantíssima: “o ciclista pode ser um motorista sem carro”. Achei melhor ainda porque pedalando de volta para minha casa na ciclofaixa da Estrada do Encanamento tive de frear porque um senhor estava querendo atravessar a avenida e não me viu pedalando no sentido contrário dos carros.

Fiquei pensando nestas duas questões, a responsabilidade do ciclista e também a do poder público municipal no sentido de sinalizar as vias e evitar acidentes, ao mesmo tempo em que as pessoas consigam se locomover com eficiência.

Apesar de gostar de bicicleta, meu amigo não consegue pedalar porque perdeu parte da flexibilidade e mobilidade de uma das suas pernas. Quer dizer, ele frequenta os #ocupeestelita, esteve no protesto da Agamenon, faltou o do Cinema São Luiz, mas numa Bicicletada não tem como ele estar porque não consegue pedalar nem em bicicleta ergométrica. De sua maneira educada, ele me contou alguns episódios em que como pedestre se sentiu ameaçado por ciclistas que utilizam as calçadas, não respeitam os sinais de trânsito ou cometem algum outro tipo de irregularidade.

O que achei mais interessante é que olhando para meu amigo ninguém imagina que ele tem problema de mobilidade. Quer dizer, em cima de uma bicicleta em velocidade rápida, eu poderia esperar uma reação dele para se safar de uma colisão que ele simplesmente não tem como realizar, porque mesmo fazendo fisioterapia, caminhando na praia e malhando ele não consegue ter a flexibilidade/mobilidade na perna que para a maioria é normal.

Aprendi a pedalar com três anos. Talvez a lembrança mais antiga da minha vida tenha sido em cima de uma bicicleta, o dia em que levei uma mordida de um cachorro chamado Cenoura.  Ainda criança, criava circuitos imaginários de bicicross subindo e descendo as calçadas do Poço da Panela. Quer dizer, para mim vai ser sempre um prazer muito grande ultrapassar as barreiras da nossa cidade em cima de uma bicicleta, mas aprendi já há um tempo que lugar de ciclista é na rua para evitar acidente com os pedestres.

É uma coisa que muitos ciclistas, como eu, têm de prestar atenção, porque é fácil ceder à tentação de meter uma mountain bike para cima do meio-fio e ganhar alguns segundos no trajeto (e até dá para fazer isso andando, como tenho feito muitas vezes com minha Caloi 10). Já em relação aos sinais de trânsito, eu não vou mentir, por mais que as bicicletas devam respeitar a sinalização muitas vezes é mais perigoso esperar o verde no sentido que estamos indo do que furar o sinal, já que nossa cidade não tem uma sinalização que respeite os direitos dos ciclistas.

Me vem à cabeça um cruzamento aqui bem perto de casa, logo após à Praça de Parnamirim. E vou falar dele para chegar à minha sugestão para a ciclofaixa das Estradas do Arraial e Encanamento. Após o Serpro (na 17 de Agosto), muitos carros viram à direita em direção à Torre. O ciclista que para no sinal vermelho e quer seguir adiante fica numa situação complicada para concorrer com a enorme quantidade de carros. É o tipo de situação que em uma cidade planejada também para os ciclistas haveria um tempo semafórico para as bicicletas.

Por enquanto, é preciso pensar no cuidado necessário para evitar a colisão naquele trechinho de faixa de pedestre, especialmente nessa hora em que o ciclista sabe que precisa passar o sinal antes do verde ou pelo menos estar à frente dos carros para poder cruzar a via antes dos veículos começarem a dobrar. Existe uma solução eficiente para cruzamentos, que é deixar uma área à frente dos carros para os ciclistas, mas nesse caso a solução ideal é outra e por isso vou começar a falar da minha experiência como ciclista na ciclofaixa aqui da Zona Norte.

Quando eu vi a sinalização meu primeiro comentário foi de terror.  “Estão querendo transformar o Hospital Agamenon Magalhães em uma unidade especializada em traumas de ciclistas?” A sinalização da ciclofaixa naquele cruzamento é um risco para os desavisados, já que os carros fazem a curva em alta velocidade. (Mas isso pode ser visto facilmente nesse vídeo aqui).



Agora, a Prefeitura do Recife vem dizer publicamente que terá de tirar a ciclofaixa do Arraial porque os ciclistas estão andando na contramão? Isso é uma falácia. Quem anda no sentido contrário da Rosa e Silva é uma minoria de irresponsáveis que faz o mesmo na Rui Barbosa (ou na Agamenon) e deveríamos há muito tempo ter previsto uma forma de punir esses ciclistas. A ciclofaixa é perigosa porque passa por um cruzamento em que os motoristas costumam entrar muitas vezes acima dos 40 ou até 60km/h.

Além disso, não foi feita nenhuma sinalização para avisar aos motoristas do fim da terceira faixa após a Tamarineira. Eu mesmo, no meu carro, já me peguei dirigindo sobre a ciclofaixa porque é muito menos efetiva a sinalização horizontal e irresponsavelmente o Governo Municipal não indica o fim da faixa da esquerda dos carros.

Para se ter ideia de como é necessária e urgente uma melhoria na sinalização, lembro que a Prefeitura diz publicamente que a ciclofaixa é unidirecional, mas não existe nenhuma sinalização vertical ou mesmo horizontal que mostre isso para o ciclista que não leu o jornal no dia da implantação do binário. E, vamos ser sinceros, não existe porque se qualquer usuário sabe que aquela alternativa de tráfego para bicicletas só serve sendo bidirecional, os técnicos da CTTU também têm essa noção.

Finalmente, cheguei ao ponto em que comecei. Eu consegui evitar a colisão com um pedestre na Estrada do Encanamento porque estava há uns 20km/h. Mas qual o limite de velocidade para bicicletas naquela ciclofaixa? Mesmo lendo quase tudo que saiu sobre essa polêmica, nunca soube dessa informação e não tem placa nenhuma indicando. E, principalmente, porque o Governo Municipal não admite que a ciclofaixa bidirecional é um sucesso e implanta a sinalização afirmando que os ciclistas podem trafegar nos dois sentidos? Isso seria uma forma de avisar também aos pedestres, para que tenham essa atenção extra ao cruzar as vias. (Pessoalmente, acredito que a Prefeitura pode até vir a implantar uma sinalização indicando uma direção apenas, mas vou continuar defendendo que os ciclistas utilizem a ciclofaixa nas duas direções e me desculpe quem discordar).  Mas é preciso reforçar, especialmente agora que não tem sinalização, que o ciclista tenha atenção redobrada e pedale numa velocidade mais lenta que o normal.

Em relação ao perigo na Estrada do Arraial para os ciclistas, a minha sugestão vem dos primeiros projetos que vi para a Zona Norte quando era assessor de imprensa da CTTU, na época da implantação do binário Domingos Ferreira-Conselheiro Aguiar. O Governo Municipal não deve tirar a ciclofaixa dali antes de implantar a continuação do trajeto pela Rua do Futuro, transformando uma das faixas que hoje são de estacionamento em trajeto para bicicletas.

Desde aquela época a Prefeitura sabe que essa é a alternativa ideal, mas hoje está claro que temos um problema grande porque o trajeto implantado aumentou o congestionamento na Rosa e Silva, já que ali foi o único trecho de avenida em toda a extensão da ciclofaixa em que se diminuiu uma das faixas de rolamento para os carros. A Rua do Futuro recebendo uma ciclofaixa estaria sendo privilegiado o Parque da Jaqueira, que inegavelmente é o local de lazer que mais atrai ciclistas na cidade. Mas, principalmente, a via se tornaria um acesso muito mais seguro para o Centro para os trabalhadores, já que de lá é fácil atravessar a Agamenon por uma das alternativas no Espinheiro.

É como me disse um engenheiro de tráfego antes da implantação mal sucedida da Conde da Boa Vista, alternativas eficientes existem mas é preciso enfrentar a reação de setores da sociedade. O Governo Municipal errou no Centro, mas ainda tem chance de transformar um projeto mal feito em uma alternativa mais segura e viável para milhares de ciclistas da Zona Norte do Recife.

Foto: Fernando Lima

19.8.12

Os clássicos também apaixonam


Cheguei às 15h30 e para meu espanto a fila já estava dobrando a esquina. Um picolé para aliviar o sol e vamos esperar que era dia de estreia. “Isso é para quem diz que pernambucano não gosta de teatro. O ingresso é caro, mas de graça a gente vem”, me disse o rapaz na minha frente, que nunca tinha ouvido falar de Magiluth.

Não bastava ser um Nelson Rodrigues. Melhor lugar do que o Santa Isabel está difícil de aparecer para uma encenação de Viúva, porém honesta. E pra quem conhece o grupo, ficava uma grande interrogação de como eles iam se sair com a interpretação de um clássico. Logo eles, tão apegados a um jeito livre de criar e interpretar.

O público estava bem diversificado. É verdade, o grupo vem criando um hall de fãs/amigos e na última temporada no Recife muitas vezes teve gente que ficou de fora por falta de ingressos. Mas para lotar o nosso palco nobre ainda apareceram os colegas de teatro, muitos críticos e jornalistas e uma quantidade enorme de gente atraída pelo preço (R$0) e a oportunidade de ver um clássico no Santa Isabel.

Mas o que é bom tem seu preço. Para ver essa estreia, foi baratinho. Quem conseguiu ingresso, precisou apenas esperar a fila do bilhete, a da entrada e depois os discursos de quem ia falar sobre o festival Letra e Voz. Mas eu queria mesmo era ver o Magiluth outra vez.

E seria mentira dizer que surpreenderam. Eles mantiveram a pegada, estão crescendo de qualidade há cada espetáculo e agora aparecem com uma superprodução. Eu tinha perguntado quem faz a viúva para Giordano Castro, só pra ouvir a resposta. “Todos. A gente se divide nos papéis”. Mas não tinha imaginado a desenvoltura que eles trocariam de personagens em cena, brincando com os espectadores que chegam a pensar que é tudo um grande improviso.

Será que é?  Na hora H, uma grande brochada. A cama de encher fica meia bomba e a cena da noite de núpcias demora a acontecer, mesmo quando os atores sobem no colchão inflável ele está com menos da metade do ar. E aquela confusão entre o texto e a brincadeira Magiluth de fazer teatro deixa a todos sem saber até onde vai a capacidade do grupo brincar com o seu público.

São homens que não têm medo de aparecer sem pênis para fazer o papel da noiva safada ou da viúva honesta. E quem costuma ver os espetáculos dos meninos já identifica os jogos de cena, que projetam um estilo próprio e irreverente. Que bom, o Magiluth está ganhando o país. Mas, façam o favor, voltem sempre. A casa estará sempre aberta, senão com a pompa deste domingo, com a cerveja gelada e o caldinho quente da receptividade pernambucana.

Risadas. O público pernambucano recebeu o drama de Nelson Rodrigues com sonoras gargalhadas. Luzes. O Santa Isabel merecia uma peça contemporânea para iluminar e rejuvenescer as suas estruturas históricas. Projeção. E o Magiluth fez muito bem em encarar um clássico para se tornar uma companhia de envergadura nacional.

Obrigado pelo presente Magiluth. Feliz de ter levado dois meninos de 12 anos e de sentir a vibração deles com uma produção que diz tanto do nosso passado quanto do futuro da arte que se faz nessa terra.

30.7.12

Por que P-Sol?


Eu lembro quando fiz a opção pelo P-Sol.

Em 2002, morava no Rio de Janeiro, Ronaldo e Rivaldo tinham feito aquela dupla infernal na Copa do Mundo e as eleições indicavam a primeira vitória de Lula para presidente da República. Fui para um pequeno encontro na casa de uma tia minha no Arpoador e o deputado federal Chico Alencar colocou em palavras aquilo que eu queria dizer.

“O PT está chegando ao poder, mas não podemos nos contentar em ganhar as eleições. Temos que lutar para avermelhar esse Governo. Temos uma tarefa que será dura, porque sabemos que o caminho mais difícil é o da coerência e o mais fácil leva aos conchavos com os grupos econômicos tradicionais, com as oligarquias e é muito possível que não consigamos segurar esse barco. E se tivermos que sair do partido para continuarmos a lutar por nossos ideais, a luta vai ser mais dura, mas também será ainda mais importante”.

Eu, que já tinha vivido a sensação de estar vivendo uma gestão petista na Prefeitura do Recife, me identifiquei completamente com aquele discurso. Voltei para o Recife e formei a ala Chico Alencar em um gabinete do PT. Do outro lado da sala, Rodolfo Cabral formava a ala Ivan Valente. Fizemos tanta pressão que conseguimos levar Roberto Leandro para o único grande encontro do Bloco de Esquerda do partido no Recife.

Fiquei extremamente feliz pelos elogios de Paulo Rubem pela coragem que o deputado estadual teve de participar daquela reunião que tinha sido organizada para discutir a reação do grupo ao escândalo do Mensalão. E comemorei o voto em Chico Alencar quando ele, como petista, expressou o sentimento de milhares de filiados e de boa parte da sociedade que se envergonharam com a tentativa de impedir a criação da CPI do Mensalão: “O fato de governos anteriores, em especial o de FHC, abafarem CPIs, não nos legitima a fazer o mesmo. A política é, de fato, muito dinâmica: os "hereges" de ontem são os "companheiros sensatos" de hoje...Quem dentro do próprio PT nos desmereceu, classificando-nos como "braço tucano" ou "lacaios da oposição", agora reconhece que a operação anti-CPI nos desmoralizava na opinião pública, reforçava suspeitas de envolvimentos em ilícitos e se chocava com a história do PT”, dizia ele.

Fui para Brasília. E novamente me encontrei com o deputado Chico Alencar. Conheci pessoalmente Ivan Valente. Mas agora já trabalhávamos em lados distintos, pois eu estava como assessor de imprensa do então petista Paulo Rubem Santiago. Quando veio a briga final do PT com o parlamentar, achei que era finalmente a hora de unir o discurso à política partidária e que a filiação ao P-Sol era a alternativa da coerência.

Naquele momento, Edilson Silva teve a coragem e o desprendimento de dizer que abria mão de uma candidatura a prefeito do Recife. Aquilo juntava praticamente toda a minha esperança, porque costumava dizer que João da Costa era o Delúbio Soares do PT de Pernambuco. E tive a cara de pau de pedir pessoalmente aos deputados Chico Alencar e Ivan Valente que fizessem um apelo para a filiação de Paulo Rubem ao P-Sol. Infelizmente, o parlamentar optou pelo PDT e forçou o pequeno partido a repetir pela segunda vez uma mesma candidatura majoritária em Pernambuco.

A história continua com uma candidatura derrotada à Prefeitura de Jaboatão e eu já não tinha mais clima de trabalhar com os pedetistas, pois tinha virado traidor por ter declaradamente feito campanha por uma opção que era o P-Sol, mas que era principalmente a coerência de um político que tinha uma história de vida a defender. Mas ainda fui trabalhar na Prefeitura de Jaboatão e do meu celular Elias Gomes chamou Paulo Rubem para participar do Governo Municipal. Assim como no início da gestão de João Paulo, achei que tinha feito meu trabalho e pedi para sair.

Dez anos depois, estava de novo pisando no solo e sem trabalhar com política. Comecei a atuar no Direitos Urbanos, porque acho que os partidos estão longe de serem as únicas maneiras de se fazer política. Acompanho, de longe mas com expectativa, a criação do Partido Pirata do Brasil. Mas tenho de admitir que tenho agora exatos dez anos de dívida com Chico Alencar, Edilson Silva e com o P-Sol. Lendo uma reportagem no último domingo que falava sobre a política de alianças de um grupo do partido, resolvi declarar meu voto. Por caminhos tronchos também se chega a um caminho de coerência. Voto 50!

23.5.12

O que aprendi com Eduardo Campos


Vou compartilhar uma coisa pessoal aqui. Sempre tive ódio do governador Eduardo Campos.

Falo com esses termos mesmo, porque era coisa de criança.

Imaginem. Naquela época de inflação meu pai criou (não sei quem mais estava com ele nisso, adoraria saber dar o crédito) na Emprel uma pesquisa semanal para verificar os supermercados e mercadinhos que estavam vendendo mais barato. Era a realização do sonho de um analista de sistemas preocupado com o social, que viveu para ver apenas a primeira versão do Windows. Mas quando Jarbas Vasconcelos deixou de ser prefeito, ele virou diretor do órgão de informática do Governo do Estado, que naquela época se chamava Fisepe.

Antes de começar a trabalhar lá, não existe nada que eu me lembre – nem mesmo o Flamengo – que Fred Amorim falasse tão mal quanto aquela primeira gestão de Arraes pós-Ditadura. E eram muitos embates, porque a mulher dele trabalhava e era empolgadíssima com os projetos de preservação e recuperação arquitetônica que ela tocava na Fundarpe.

Meu pai tinha fundado o PSDB, depois de se envolver fortemente na campanha de Bruno Maranhão para prefeito do Recife pelo PT, tinha saído de uma apaixonante experiência na primeira gestão de Jarbas Vasconcelos na Prefeitura do Recife e aceitou um emprego naquela gestão de Miguel Arraes não me perguntem o motivo. Seria obrigado a responder que só posso imaginar que foi para pagar as contas no fim do mês.

Em 1989, antes de Sorato dar o título Brasileiro ao Vasco e da Globo fazer aquela edição ridícula do debate entre Fernando Collor e Lula, uma cena marcou meu sentimento em relação à política.
Estava ali às vésperas de completar 11 anos. O enterro do meu pai cheio de pessoas que eu não conhecia. De repente, chegou um jovem secretário para prestar solidariedade à família e eu achei um desrespeito tremendo a transformação do luto dos amigos, familiares e o meu especificamente em um ambiente de discussão política.

Meu pai morreu do coração numa das primeiras reuniões de greve em que teve de representar o Governo diante da sua categoria (foi dos primeiros analistas de sistema formados pela IBM no Brasil). Assim como criei uma aversão completa ao cigarro porque naquele dia alguém me disse que ele tinha morrido porque fumava duas carteiras de Hollywood por dia. Provavelmente, endemonizei o hoje governador culpando ele por não ter aceitado o fardo: Quando me perguntaram se eu queria segurar o caixão eu respondi não. Era mais fácil dizer que não queria ficar numa ponta e ver Eduardo Campos na outra do que simplesmente admitir que foi coisa de criança.

Já adulto eu me reencontrei com o então ministro da Ciência e Tecnologia. Lembro de me queixar demais com minha ex-mulher. Eu tinha que correr para caramba para ir pro trabalho, dar uma saidinha, aparecer na reunião de pais e mestres e voltar para um outro emprego. E lá estava Eduardo Campos em plena quarta-feira participando daquelas longas e monótonas conversas sobre o desenvolvimento dos nossos filhos... “O cara devia estar em Brasília trabalhando! Ele é ministro de Estado!”

Não só em Julia, como em toda mulher que conto essa história, só consigo ver como resposta um brilho nos olhos de quem falaria “olhos azuis”. Mas continuei sem nutrir nenhuma admiração pelo gestor, apesar daquela inegável prova de respeito à família dele. Mais ainda, porque no meio da euforia da primeira vitória dele para governador encontrei meu filho afogado na Praça de Casa Forte com umas crianças da família Campos ou Arraes que em êxtase se colocavam como reis do mundo e enchiam o saco de todo mundo que tinha menos de 11 anos.

Eu tinha dado meu primeiro voto a Edilson Silva naquela eleição. E fiz questão de levar meu filho para conhecer o deputado federal Paulo Rubem Santiago. Naquele mar de gente amarela que comemorava uma vitória que não era minha, disse alguma coisa como “Chico esse cara é um político de verdade”.
Meses depois, estava eu trabalhando com aquele deputado federal que eu tinha conhecido ao denunciar o esquema dos precatórios. Para quem não lembra, o petista Paulo Rubem foi o grande opositor do governador Miguel Arraes. Por sinal, desenvolveu uma equipe na Assembleia Legislativa que entendia tanto de orçamento público que até hoje alguns deles são referência e atuam em cargos de chefia ou de relevância nessa área.

E sentei ao lado de Eduardo Campos no Tribunal Superior Eleitoral quando ele foi fazer a defesa do parlamentar que estava sendo expulso do PT. E o presidente do PSB lia as anotações que eu fazia para o advogado de defesa e transformava em argumentações diretas antes mesmo de ser questionado. E o governador de Pernambuco arranjou tempo na sua agenda para pegar um avião do Recife até Brasília e ir defender um deputado que tinha sido seu grande inimigo no início de carreira. E, em compensação, o companheiro Fernando Ferro tinha ficado no Congresso Nacional porque não teve oportunidade para sair das votações e Paulo Rubem só teve duas (das três que tinha direito) testemunhas de defesa.

Naquele dia eu apertei com orgulho a mão do governador Eduardo Campos. Posso nunca ter votado nele, mas a aula que eu tomei naquele dia me tirou todo o ódio e criou uma certa admiração. Por que política é uma arte para poucos.

23.4.12

Poder público e Paul McCartney

Sim. Eu fui. E  vou continuar criticando o projeto apresentado para o Cais José Estelita, mesmo sabendo que a Moura Dubeux foi uma das patrocinadoras. Por sinal, antecipei minha volta de São Paulo onde fui em viagem de trabalho para ver o show, para o qual tinha comprado ingresso antes de saber que a construtora era patrocinadora, e fazer a cobertura das semifinais do Pernambucano para o Terra.

Eu adoro os Beatles. Tenho uma coleção de vinis aqui em casa com alguns exemplares dos caras. Acho que são os discos mais ouvidos em meio a dezenas de Miles Davis, Coltranes e alguns lindos Miltons, Gilbertos e bossas.

Mas tenho impressão que faltou abordarem um aspecto no debate sobre os dois shows daqui do Recife. Sim, na parte técnica ele realmente me impressionou. Deixo para quem entende mais de música as críticas, até porque não tinha como eu ouvir Let it be ao vivo e não achar que aquilo era um momento fantástico.

No primeiro dia, uma fila monumental se formou. Uma coisa enorme, mais de um quilômetro, sem organização nenhuma. Nunca vi aquilo nem em jogo do Santa Cruz, sorte que não teve arrastão, mas como tem virado comum foram muitos assaltos na entrada do show. O desrespeito foi total especialmente para quem pagou R$40 a mais para ter o chamado Visa Pass. A propaganda enganosa dizia que não haveria filas e são centenas, talvez milhares, de pessoas que deveriam se organizar para entrar na Justiça com ações contra os organizadores/patrocinadores.

Pior foi o domingo. Milhares de ingressos foram distribuídos pelo Governo do Estado. Nada contra a cultura ficar mais acessível aos servidores públicos. Mas para se ter ideia da falta de critério com que as pessoas recebiam isso um amigo meu comprou ingresso por R$30, foi jantar na casa dele e depois voltou para assistir o show lá no gramado do Arruda. Outro ficou lá esperando para ver se comprava por R$5 ou R$10 depois do início.

Os cambistas revenderam entradas por até R$30 (talvez menos?) porque os servidores que receberam os ingressos não tinham o menor interesse em Paul McCartney. Qual foi o critério utilizado para distribuição? Fiquei curioso sobre quantos ingressos foram comprados pelo Governo do Estado e o preço pago por unidade? Fora grande quantidade de pessoas que receberam os ingressos de uma empresa patrocinadora (qual?).

Acho que temos o direito de saber quanto o Governo do Estado investiu no evento, assim como foi publicado que a Prefeitura do Recife gastou R$400 mil. Mas seria absurdo não notar que o gasto do Poder Público com esse evento prenuncia um risco enorme de desvios, privilégios e mesmo possibilidade de corrupção em novos eventos culturais ou mesmo durante a Copa do Mundo. Fiscalização e canja de galinha nem sempre são vistos com bons olhos, mas fazem muito bem.



http://www.flickr.com/photos/direitosurbanos/

15.4.12

#euocupeisemsaber

Eu gosto muito do Batida Salve Todos. Gosto dos comentários sobre moda, das fotos de gente bonita e mesmo do bom humor com que a autora fala de temas que não lhe são familiares. Meu post preferido é aquele em que ela se diz completamente ignorante em termos de alta gastronomia.

Por isso mesmo, faço questão de dar meus argumentos para ela saber de onde surgiu esse movimento na internet chamado Direitos Urbanos e porque foi tão importante um dia dedicado ao #ocupeestelita. Mas primeiro faço questão de esclarecer. Nunca estive de frente. Li pouquíssomo do que meus amigos professores doutores João Paulo Lima e Silva Filho, Leonardo Cisneiros e Erico Andrade postaram na internet. Estou distante até da militância de um cara como o cineasta Marcelo Pedroso. Então, #euocupeisemsaber e não me arrependi. Ainda fiz pior, levei meu filho. Aliás, repeti esse crime que minha mãe cometeu.
Fui para o cais hoje com uma história em quadrinhos de Cavani Rosas nas mãos. Mostrei aos meus amigos e eles fizeram questão de saber de que ano era aquela chuva de prédios sobre o Poço da Panela. Lembro daquele dia, na Rua dos Arcos, quando a ameaça era de autorizarem um primeiro prédio de grandes proporções por ali.  Saudoso Poço da Panela de 1986.

Cresci naquele bairro que tinha um campo de areia, dois de grama, três pés de mamona, 12 palmeiras imperiais, 17 mangueiras, 37 jambeiros e um pé de azeitona rocha que continua em pé. É, ao contrário do que dizia reportagem recente, o Poço da Panela não é mais o mesmo. Por mais que os orgulhosos compradores dos prédios de R$600 mil reais erguidos sobre a matinha de Zé Donino neguem, nas horas de pico é preciso enfrentar um trânsito de pelo menos uma hora no corredor 17 de Agosto-Rui Barbosa. Não vou nem falar na interferência no clima e do fato de 20 e tantos edifícios terem sido erguidos sobre uma área, como me disse uma arquiteta da Prefeitura, que era o último espaço para onde fluíam as águas das chuvas na região de Casa Forte. Vamos esquecer também que após o Habite-se, criminosamente, aquelas árvores que faziam parte da minha infância são derrubadas mesmo sob queixas de uma minoria de moradores que gostariam de tê-las no futuro deles, mesmo que como propriedade do condomínio.
Enfim, o Poço e Casa Forte ainda não são os piores lugares para se viver no Brasil. Mas claramente não comportavam o crescimento desordenado que não conseguimos evitar nestas duas últimas décadas. Mas estava eu ali com um papel para dizer que um artista plástico previu que os planos estavam errados, que aquilo não daria certo e iríamos nos arrepender de deixar que as construtoras fizessem o que bem entendessem dos terrenos privados que elas comprassem no bairro há quase 30 anos.
Foi ali, com meus oito anos, que comecei a entender o que era brigar pelos Direitos Urbanos no Recife. Uma derrota clamorosa! Felizmente, vieram outras batalhas e hoje sinto uma dívida eterna pela mobilização que foi feita em defesa do Sítio da Trindade. Depois de separado, deixei minha casinha com quintal na Rua Jader de Andrade e vim morar num pequeno apartamento da Estrada do Encanamento, onde tenho como vista e quintal o antigo Forte do Arraial do Bom Jesus.
A mobilização social foi intensa. O Ministério Público entrou na jogada. Foram feitas escavações que comprovaram o valor histórico e o potencial turístico da área. Enfim, o Sítio da Trindade foi preservado. E ai entra o ponto principal da história. Ninguém é contra o progresso. Naquela oportunidade, eram muitas vozes a dizer que o prédio da antiga Fábrica da Macaxeira deveria ser revitalizado para abrigar a Refinaria Multicultural do bairro. Até hoje, em todas as oportunidades que tenho cobro e reinvindico esta benfeitoria, porque realmente acho absurdo ter se deixado de lado um projeto tão bonito do secretário João Roberto Peixe só porque foi idealizado em uma área inadequada.

Coloco o Sítio da Trindade como exemplo, para evitar aquele discurso de que a mobilização da Tamarineira foi vitoriosa porque tinha por trás a força econômica e os meios de comunicação do grupo JCPM. Por sinal, nem é justo chamar de vitoriosa. O uso daquele espaço ainda pode ser muito mais público, assim como o do Sítio da Trindade. Espaços que ainda são esquecidos pelo poder público.

Ao contrário da maioria tenho uma relação particular com o Cais José Estelita. Aprendi a velejar ali, vendo as cabeças de boi boiarem na maré, levando caldo naquela mistura de bactérias com água e sofrendo com a interrupção do vento quando passamos pelas torres gêmeas no Bairro de São José. Assim como fiz um acampamento para me despedir da Muro Alto que conheci, fiz também antes desse encontro de hoje um piquenique de adeus aos antigos galpões do porto.
Ao contrário de Muro Alto, onde não conseguia ver alternativa para preservar um local que me era caro, vejo no Cais José Estelita uma grande possibilidade de se lutar para que seja criado um espaço para tornar Recife uma cidade mais habitável. O #ocupeestelita teve justamente o mérito de mostrar que ali naquele espaço, por ser tão central e tão maravilhoso, podemos reunir gente da Zona Sul e da Zona Norte para andar de skate, passear de bicicleta, fazer arte ou fazer nada vendo aquela vista linda. Muita gente ali queria gritar: crescimento responsável também dá lucro! Eu, por outro lado, acredito que crescimento sem planejamento é prejuízo social e também econômico.
É claro que ninguém está se iludindo de que o processo é fácil. Sabemos que é difícil, que precisamos nos unir ao Ministério Público, aos grandes urbanistas dessa cidade, aos políticos (só vi Edilson Silva na mobilização e o futuro vereador com essa simples presença ganhou meu voto), mas precisamos acreditar que não vamos ter novamente uma derrota clamorosa como foi a que causou o inchaço e a destruição da área mais nobre da Zona Norte da nossa cidade.
Mas o Cais José Estelita é o único lugar que está passando por um risco grave? Não. Se meu amigo sociólogo me emprestar eu faço questão de levar o sofá e a plaquinha onde ele escreveu ativista de sofá para os aterros ilegais da Moura Dubeux, na BR-101 Sul. Ali, no caminho de Suape, as comunidades ribeirinhas sofrem cada vez mais. Mas, quase na fronteira de Jaboatão com o Cabo de Santo Agostinho, não dá link no ao vivo da Globo. Aliás, você já ouviu falar em Comporta?

22.2.12

Saudade do silêncio

Uma decepção enorme nas ladeiras de Olinda.
Aquela estrada sem tamanho e a chuva para esconder as lágrimas.

Um encontro apertado nas ruas do Recife Antigo.
E um até logo com gosto de café com leite.

A mais fina ironia adolescente.
E o aconchego dos amigos que vêm de longe.


Carnaval é uma mistura de orixás.
Ou de sensações, ou de ausências e presenças.

O beijo roubado na hora errada.
Se mistura com aquele que veio logo depois de uma corrida pra dentro do dragão.

Eu acho é pouco.
Ela nem me conhece e me contou do seu amor impossível.

A decepção do sábado.
Se reconcilia na confissão da terça.

O frevo do domingo pode perder a harmonia na segunda.
Mas pode também virar samba na vida de qualquer pessoa.


Ainda bem que esses quatro dias existem e são tão intensos.
Mas vou confessar que estava com saudade do silêncio.


Louco para entrar na piscina e pensar apenas nos próximos 2.000 metros.
A tal ponto de fazer um textinho só pra fazer de conta que esse blog voltou.

20.12.11

Twelve angry men


- Pai. Amanhã vou ser o juiz no julgamento da escola.


Tá tudo errado na vida na vida de quem tem três trabalhos e esquece de dar prioridade absoluta ao que uma criança de 12 anos fala quando se chega em casa. Mas a verdade é que o filme completo no Youtube facilita a resposta óbvia para essa frase. Ainda mais quando se está vivendo seus dois únicos dias de folga de fim de ano.

É o seguinte. Filho de Xangô tem que assistir esse filme todo ano. Óbvio, que ainda vou estourar minha fúria para cima de alguém, é da minha natureza, mas evidentemente fica mais fácil lembrar de todos os riscos de pré-julgamento depois de se lembrar do texto perfeito do filme de Sidney Lumet.

Mas nada como uma lição de cinema e vida para o seu filho, que tem toda uma relação com uma parte importante da formação do seu caráter. Twelve Angry men (Movie Making), juntamente com Johny got his gun (American Literature), foram os grandes momentos da minha passagem pela Sheboygan South High School.

Meu anti-americanismo esbarra justamente nesses momentos grandiosos da indústria do entretenimento de Hollywood. E nas cartas de Buckowsky, sem esquecer dos improvisos de Coltrane, da paixão pela comida francesa de Bourdain e na auto-piada daqueles chapéus de queijo dos cheesehead que vão torcer para o Green Bay Packers.

Só para dizer da minha felicidade de ver meu filho rir e adorar assistir um filme de 1957, que se passa (quase) integralmente em uma sala fechada e foi filmado em preto e branco. É, eu tenho esses defeitos, defendo realmente o valor do texto acima de todas as sensações que podem ser proporcionadas esteticamente e só gosto de filme colorido.
Mas, as vezes, é preciso priorizar algo em que se acredita.

27.9.11

Uma passadinha no Mercado da Boa Vista

Que Chico não veja isso!

Uma das primeiras polêmicas na sala da pós em Gestão em Gastronomia, que estou fazendo no Senac, foi sobre a falta de um bom restaurante à la carte de comida regional no Recife. Realmente, falta um empreendimento um pouco mais requintado como era o Assucar, mas minhas opções para comer esse tipo de comida são o Tonhão (que Tiago Areias descreveu em outro post deste blog) ou o Mercado da Boa Vista, que acho mais apropriado para um tira-gosto e uma cervejinha gelada do que propriamente para uma refeição completa.
Passei pelo Mercado na última vez que meu irmão veio de Brasília para passar um fim de semana no Recife. O que mais gosto naquele lugar são os jambeiros. Acho uma delícia sentar embaixo de uma árvore e ficar conversando, infelizmente já há alguns anos que colocaram ali alguns toldos brancos muito feios que destoam da arquitetura antiga do local, mas o ambiente ainda é bastante arejado e vale à pena pela cerveja gelada.

Onde está Naná?

Falando na loura mais fácil do pedaço. Sentamos no Recanto do Lelêu. Ali, sempre a cerveja é estupidamente gelada e sai naquele precinho tabelado: R$3,50 (Skol). O barzinho, no entanto, tem poucas opções de tira-gostos.

Comecei pedindo dois caldinhos de feijão, que saíram por módicos R$2,00 cada, na barraca ao lado. Estava gostoso, mas meu filho reclamou com razão do tamanho dos pedaços de charque (enormes!). Enfim, vai ver minha professora tinha alguma razão mesmo na reclamação dela. É bom que se explique, ali no Mercado da Boa Vista existe uma certa liberdade em relação a sentar na mesa de um bar e pedir as comidinhas dos concorrentes. Minha pedida mais tradicional é o arrumadinho. Nesse bar em que fizemos os pedidos, o Petisqueiro, os tradicionais de charque, carne de sol ou linguiça matuta saem por R$16,00, já o de bacalhau custa R$19,00. Vá sem medo!

Só um pouquinho além do salsichão de jogo.

Não dá para deixar de citar uma das coisas mais engraçadas daquele mercado. Apesar de nunca ter me arriscado naquele pratinho, sempre me impressionou a coragem do pessoal que pede um pratinho de frios muito tradicional da Mercearia Jovem São Sebastião. Salsicha, salame, mini-cebolas, azeitonas, pimenta de cheiro, queijo do reino, prato e coalho em um pratinho bem generoso. Curioso, perguntei o preço: R$10,00.
Quando quero uma refeição mais completa geralmente meu pedido é no Buchadas Bar. Ali, as opções são variadas e o atendimento não demora nadinha. Apesar do nome, que assusta quem não é fã do prato típico, a variedade é grande. Cabidela com farofa de cuscuz, dobradinha, bode assado ou guisado, rabada, patinho com charque, charque no feijão e bisteca de porco assada eram os pratos do dia desse domingo. Já o almoço comercial de buchada para uma pessoa saia por R$10,00.

Para ser sincero, tomei minhas cervejinhas e acabei indo almoçar em um outro restaurante. Mas não é que não goste da comida do Mercado, saí a pedidos do meu filho, que estava com a típica impaciência da pré-adolescência. Ficou para a próxima oportunidade, que com certeza não vai demorar.
Endereço: Mercado da Boa Vista. Rua Santa Cruz, s/nº

23.5.11

Gêmeos

Fui encontrar meu professor no meio da torcida do Santa Cruz. "Em cima do escudo", ele tentou marcar. Mas ali do lado do Arruda já era o bastante para um coração rubro-negro. Talvez outro dia, quem sabe numa partida que não seja a sonhada final, a do hexa, de preferência contra um time que não seja o Sport ou mesmo de Pernambuco.

Perguntei ao garçon o que ele recomendava para uma menina. Rindo da forma como falei com ele, ela pediu um cosmopolitan. "Por que me lembra a época que eu saia com umas amigas e assistia Sex and the city". E eu fiquei ali namorando o rosa, vermelho e branco daquela vodka. Enquanto devorava o meu whisky, ela sorvia o que queria da sua bebida.

Chico, do nada, me disse "isso me lembra alguma coisa". E eu me lembrei de um dia que meu pai foi me pegar no Instituto Capibaribe. Helena já era uma lenda na minha vida e eu resolvi falar. Afinal, Mariana era a segunda mais bonita da sala e estavam todos dizendo que ela queria namorar comigo. Poucas vezes eu achei que precisava falar com ele.

"Os dois somos muito tímidos". Era tão simples ter dito isso, na certa o velho entenderia. Talvez ele já estivesse muito longe dos 11 naquela época, mas todos nos lembramos de alguma maneira da nossa infância. Eu até hoje sonho com o cheiro de alho, ou de maresia, ou mesmo de uma úmida cocheira.

Mas de uma maneira diferente acabei repetindo aquela mania que meu pai tinha de ir para a torcida do adversário. Sem gritos, muito menos xingamentos. Não fui encontrar com os cabelos brancos do meu professor, mas dei um grande abraço em Duda antes do jogo começar. E quase fiquei feliz com a contida vibração dele.

Tem gente que veste a camisa todo domingo. Outros guardam a música no coração. Eu fico feliz pelas coincidências de ajudar amigos a lembrarem dos seus pais. Um catálogo de arte. Um desenho animado. Um filme que ficamos assistindo juntos no telão, enquanto o resto do mundo pula e grita um show de rock.

E continuo tentando me sentir bem nesse fim de maio. Comprei uma radiola nova para me preparar. Mandei fazer um móvel para os discos de jazz. Por incrível que pareça, era o mais simples e foi o único que ainda não foi entregue. Talvez o marcineiro tenha percebido o tamanho da responsabilidade que joguei nas mãos dele...

...até que chegou. Não tem retorno para o princípio. Se reinicio é de um novo começo. Como um prédio. Ele implode, deixa vestígios, então a gente arruma, faz a base que é para não ter que destruir de novo, arruma tudinho e finalmente estamos prontos para iniciar novamente a construção das duas torres.

15.1.11

Infância, futebol e jornalismo

Quando eu era criança tinha uma coleção de reportagens que eu gostava e colava no caderno. Não lembro bem se o tema era o Vasco da Gama ou o Sport?

Sei que na minha primeira viagem pro Rio fui entender o que era jornalismo esportivo. Lembro até hoje de (meu tio) Armando Freitas  me contando a sensação de estar ali dentro do campo do Maracanã em dia de clássico.

Ele me explicava o quanto era um privilégio ver a torcida do Flamengo dali de dentro. Mas desconfio que nem era só o vermelho e preto que o emocionava, pois até em título vascaíno ele já me ligou (mas isso é uma outra história...).

Essa semana, ouvindo sobre a minha saudade dos campos, um amigo ficou me acusando de não ser um legítimo torcedor do Sport.

É verdade. O maior mico que eu já passei na vida foi dizer em uma matéria que o Nautico quase sai de campo vitorioso, depois de ter apanhado por 6x2.

Lembro demais, na minha época de estagiário do Jornal do Commercio, de Otavio Toscano ficar tirando essa onda no meio da redação.

Mudei o lead, mas me arrependo. Tinha feito uma crônica daquele jogo a partir do pênalti perdido pelo Nautico no início do segundo tempo.

Alguém poderia fazer um conto sobre o que seria do futebol Brasileiro se aquela bola tivesse entrado, o jogo terminasse 3x2 pro São Caetano e o Nautico se classificasse, já que ganhou de 1x0 o primeiro jogo. Ele iria contar daquela fantástica partida contra o Vasco na final do Brasileiro, em que parte da arquibancada de São Januario ruiu e a torcida foi parar no meio do campo e celebrar como o Timbu acabou levantando a taça do Torneio João Havelange. Campeão Brasileiro de 2000!

Imaginem como ficaria a cara dos alvirrubros tendo de assumir que o título Brasileiro do Sport de 1987 era legítimo. Afinal, aquele foi justamente o ano em que voltaram a se cruzar os campeões da Primeira e Segunda divisões.

Será que o Sport estaria disputando o hexa? E que os times do interior paulista teriam se tornado essas mega estruturas que são hoje? Ou o Nautico estaria construindo um estádio particular para abrigar a Copa do Mundo em Recife?

Meu pai era torcedor do Vasco e dizia que era Sport em Recife. Mas tinha uma cadeira no Arruda. Sem querer falar da paixão desenfreada que ele tinha pelo time de Roberto Dinamite, desconfio que, como eu, ele gostava muito mesmo de futebol.

Por isso, talvez, lembre com tanta tristeza do dia que deixei a redação do Jornal do Commercio. Saindo pela Rua do Imperador, não tive nem ânimo para tomar um mate para esquecer os problemas. Quem sabe não foi por isso que deixei meu emprego certo em Recife para ir tentar a vida no Rio de Janeiro meses depois...

Me lembrei daquele dia na Rua do Imperador ontem, quando recebi uma ligação voltando de Jaboatão em plena Avenida Boa Viagem. Gosto de futebol. Sou apaixonado pelo meu trabalho, escrever. E amo o imprevisível que vive nesse mundo.

12.1.11

Todos contra o Sport

Seis partidas da Primeira Rodada iniciam Pernambucano nesta quinta-feira

O Santa Cruz quer começar a sair do buraco onde vem se enfiando desde que caiu da elite do Brasileirão e se tornou fundador da ainda incipiente Série D. Os clubes do interior desejam marcar presença e quem sabe deixar de chegar perto e fazer bonito como o América, um dos únicos pequenos que detém um título Pernambucano. O Náutico deseja, além de voltar a ser campeão, manter-se com a marca histórica de ser o único hexacampeão do Estado. E todos querem evitar o quadragésimo título do atual pentacampeão Sport Recife, que praticamente oficializaria para os rubro-negros a condição de maior entre os grandes clubes pernambucanos.

A primeira rodada do Estadual começa nesta quinta-feira. Em Recife, o Sport pega o América na Ilha do Retiro, a partir das 20h30, e o Náutico recebe o Petrolina nos Aflitos, às 22h30. Os visitantes vão querer tirar pontos dos grandes, que travaram uma batalha para reforçar seus times durante a pré-temporada. No placar das contratações, os alvirrubros levam vantagem por terem contratado Derley e Eduardo Ramos, enquanto o time da Ilha do Retiro só venceu a disputa por Carlinhos Bala.

As outras quatro partidas são no interior e acontecem no mesmo horário, 21h. A maior expectativa fica por conta da estréia do Santa Cruz. Em Vitória, contra o time da casa, o Tricolor vai começar a mostrar se o time que vem preparando é realmente capaz de disputar o título. No último domingo, a gigante torcida acompanhou com animação a goleada do seu time por 4x1 sobre o CSA (de Alagoas). Agora o desafio do jovem elenco é mostrar que poderão evoluir durante o Pernambucano e chegar ao quadrangular final em condições de levantar a taça.

As outras três partidas devem ser bem disputadas. O Central terá uma difícil missão ao tentar bater o Ypiranga em Santa Cruz do Capibaribe. A tarefa costuma ser dura até para os três grandes. Em Caruaru, o Porto recebe o Araripina, que sofreu para se manter na elite do Estadual em 2010, mas se reforçou e vai querer dar trabalho neste início de Pernambucano. No Sertão, a Cabense vai tentar iniciar o campeonato com vitória para repetir o bom início que teve em 2010, mas o Salgueiro não vai se entregar fácil.

26.12.10

A paixão nos une

Lembro da minha mãe dizendo "chore meu filho". Ela gostava de se colocar contra toda essa história de que menino não chora. Além disso, tinha toda uma discussão sobre os rituais. Acho que o choro é uma escala disso, assim como o luto e os eventos que são organizados para beber os mortos (enterro, missas, funerais).

Eu quase nunca choro. Bem, quase nunca chorava. Esse ano me peguei chorando em pelo menos duas situações meio ridículas.

Acordei às sete da matina e liguei a Globo. Putz, esse vídeo me fez chorar.


O título dele diz tudo. A paixão nos une. Não sou carioca. Mas amo aquela cidade, lindo que o Brasil vai poder se mostrar para o mundo com o que tem de melhor em 2016.

Semana passada meus olhos encheram de lágrimas de novo. Serginho Capoeira falou da vez que ele levou pancada da polícia em um acampamento Sem Teto em Paulista. Putz, que felicidade aquele cara conseguindo dar mais de 800 apartamentos para o povo dele. Chorei quando a presidente da Caixa começou a falar da felicidade de poder estar viabilizando todo esse processo. Ou foi quando ele falou das dificuldades de não conseguir nada antigamente? Enfim, as lágrimas não desceram, mas o olho ficou cheio delas.

Outro dia eu bebi uma lágrima. Não era de dor, nem de tristeza. Tinha gosto de lágrima de amor. Não disse nada e até obedeci o que ela me pediu, "me deixa em casa". Ficamos eu e ela curtindo a dor e a delícia um pouquinho e ela se foi. E queria só ter dito a ela que se as lágrimas não desceram novamente, foi somente porque meu jeito é assim. Chorei também, talvez com o mesmo sentimento.

2.11.10

Tropa e Pernambuco

Assisti ontem Tropa de Elite 2. O filme continua lotando os cinemas. Na véspera do feriado, era o único em cartaz que lotava as sessões do shopping aqui perto de casa.

Achei muito bom, apesar de ter criado uma expectativa tão grande que fez com que saísse do filme achando o longa-metragem meio careta.

Um pouco porque os personagens são muito simplificados. Li uma explicação em que Marcelo Freixo (deputado que inspirou o personagem Diogo Fraga) afasta as comparações entre Wagner Montes e o jornalista corrupto do filme. É preciso mesmo dar muitas explicações, porque a história diminuiu tanto a complexidade dos personagens que Hollywood bateu na porta. Mas o principal é ter em mente que aquilo é uma obra de ficção.

Nem todo mundo que vai ver o filme leu Meu casaco de general, acompanhou a política de segurança dos governos Garotinho e Sergio Cabral e menos gente ainda fez mestrado no Iuperj.

Todo mundo fez o maior bicho sobre a violência. Eu, sinceramente, fico achando que não faria mal nenhum levar meu filho de 11 anos para assistir. Ele vê tanta baboseira bem mais violenta na Internet, que um filme com fundo de realidade até poderia fazer algum sentido.

Fico, no entanto, extremamente satisfeito de ver a política brasileira retratada na tela do cinema. Me vi várias vezes no gabinete de Romário Dias e de Guilherme Uchoa, quando apareciam as cenas de discussão para a abertura da CPI das Milícias na Alerj. Mas ao mesmo tempo me entristece perceber que o Governo Eduardo Campos simplesmente acabou com as possibilidades de uma oposição mais incisiva no campo dos Direitos Humanos e da Segurança. Quem denuncia a violência em Pernambuco?

Encontrei o sociólogo José Luiz Ratton domingo, na Praça de Casa Forte. Sou amigo dele, mas não votei no candidato dele e acredito que a sociedade pernambucana precisa urgentemente de gente que conteste os números do Pacto pela Vida. Deputados, sociólogos, jornalistas.

O fim do PE Body Count é um indício de que está tudo errado. É como se em Pernambuco a questão homicídios estivesse resolvida?

Na minha aula de História dos Direitos Humanos, recentemente, tivemos uma discussão sobre os números da violência. Uma assessora do Governo do Estado não conseguia nem mesmo se colocar na posição de gestora, se confundia com o povo e depois dizia que estava recebendo salário do Estado.

Quem vai levantar os números da violência e levar para a tribuna da Assembléia Legislativa como fazia Roberto Leandro na gestão de Jarbas Vasconcelos? Quem vai dizer que Cavaleiro é dominado pelos grupos de extermínio e o Pacto pela Vida foi para Prazeres para beneficiar eleitoralmente o governador Eduardo Campos?

Vamos aprofundar os estudos sobre a violência no Estado. Estão mesmo diminuindo os números de homicídios? E a corrupção nas polícias? Evidente, nossa violência era causada muito mais por falta de oportunidades e no momento que surgem empresas e vagas a tendência é diminuir alguns números. Mas é preciso aprofundar as discussões para exigir a melhoria efetiva do Sistema (para usar a palavra da moda).

Eu só fico menos chateado por um motivo. Votei Edílson Silva para governador. Esperoque daqui há dois e depois quatro anos o P-Sol de pernambuco mostre que está seguindo a trajetória de Marcelo Freixo e Chico Alencar no Rio de Janeiro. Oposição crítica e sugestiva. Para Pernambuco seguir avançando. Cansado desse discurso de que está tudo muito bom!

1.10.10

O verde é uma onda ou fica na marola?

Se Marina passar dos 10% terá superado as expectativas de todos os seus correligionários. Chegando aos 15%, terá deixado uma marca que pelo menos nos próximos quatro anos fará o PV parecer ter deixado o estado nanico que sempre o acompanhou. Caso atinja os 20% pode até gerar um Segundo Turno, em que os dois candidatos obrigatoriamente vão ter de assumir compromissos com a questão do desenvolvimento sustentável.

Muita gente fala que o povo brasileiro não sabe votar. Eu acho que as vezes é preciso analisar com mais cuidado as lições das urnas. Mas o eleitorado de repente passou a se preocupar com o meio ambiente?

Tenho impressão que não é bem assim.
A Região Metropolitana do Recife tem questões ambientais seríssimas e que ainda não recebem a devida atenção, especialmente do governador Eduardo Campos. Mesmo o candidato do PV no Estado foi evasivo ao deixar de enfrentar as polêmicas ambientais que quase sempre jogam em conflito empresários e ambientalistas. Talvez por isso esteja tão mal nas pesquisas, em comparação com a candidata do seu próprio partido.

Vejamos o caso mais recente. A presidente da Caixa Econômica Federal esteve na semana passada no Recife para liberar R$500 milhões para uma obra de logística entre os municípios de Jaboatão e Cabo de Santo Agostinho. Na ocasião, a Moura Dubeux (empresa beneficiada pelo empréstimo milionário) fez questão de dizer que o investimento começaria de imediato com a terraplanagem da área.

O interesse dos prefeitos obviamente é enorme para que as empresas venham e se instalem nos municípios e a competição para atrair as maiores indústrias é inevitável. Mas foram feitos os estudos ambientais para liberar esse gigantesco aterro? Afinal, Jaboatão e Cabo foram vítimas recentemente de enchentes. É natural que o Governo Federal faça a liberação das verbas sem a comprovação da viabilidade das interferências no meio ambiente? Com o aterro, com certeza algumas áreas serão prejudicadas, mas ainda não se falou em remoção de famílias.

A maioria vai achar que isso está muito longe do debate de quem está nas ruas. Acabei de chegar da comunidade Novo Horizonte, que era conhecida antigamente como Suvaco da Cobra. As pessoas ali comemoravam a construção de quatro pontes pelo Governo Municipal e contavam com muita tranqüilidade como se deu o processo de degradação da Lagoa Olho D`Água nos últimos 40 anos. Por sinal, elas continuam esperando as verbas do (fantasioso?) PAC, que teoricamente deveriam ter chegado por ali.

A Moura Dubeux tem um histórico de desrespeito ao planejamento arquitetônico e ambiental. Basta lembrar das duas torres construídas no Cais José Estelita, que desvirtuaram completamente a paisagem do Centro do Recife. Mas isso não é o mais grave. Mais grave mesmo é que o Porto de Suape já causou alterações ambientais gravíssimas no nosso meio ambiente.

Quando eu era criança e morava em Piedade adorava ver os maiores pegando onda. Na minha pranchinha de body boarding ensaiei um aprendizado do surfe, mas quando virei adolescente no Colégio Marista já tinha um colega que jogava bola com o pé de madeira, porque um tubarão o atacou ali na divisa entre as cidades de Recife e Jaboatão. O uso da praia, mais até do que os alagamentos nas favelas, é uma questão que atinge os cidadãos de todas as classes sociais e idades. E a economia, já que ninguém imaginava há 20 anos o prejuízo que nosso turismo teria com esse desastre ecológico.

Evidente que muitos podem dizer que Marina está ganhando votos porque Dilma se mostrou favorável a algumas questões como o aborto e depois voltou atrás. Ninguém gosta de um candidato sem palavra. Mas volto a insistir que os políticos ainda não viram a importância que a população já está dando ao respeito ao meio ambiente.

Para mim, Recife é um exemplo disso. Bastaria ver as mobilizações em defesa do Parque Dona Lindu, do Sítio da Trindade e do Hospital da Tamarineira e a reação gerada pela construção das duas torres pela Moura Dubeux. Como sempre, a classe média vem primeiro, porque tem mais acesso à leitura. É esperar para ver se logo essa preocupação não estará na boca do povo que de tempos em tempos tem que deixar suas casas por conta dos alagamentos.

19.9.10

Assessor de imprensa é jornalista?

Uma ex-namorada me mandou um texto interessante, publicado no Estadão, sobre a diferença entre as profissões de jornalista e assessor de imprensa.

Sempre tive dificuldade para traduzir os meus trabalhos como assessor de imprensa para o inglês, já que na língua de Shakespeare as duas profissões têm seus espaços muito bem delimitados.

Aqui no Brasil, uma questão cultural levou ambos os profissionais a assinarem o mesmo código de conduta. Me atrevo a dizer, para ódio da maioria dos que exercem a profissão de assessor de imprensa, que essa é mais uma obra do “jeitinho brasileiro”.

A história do jornalismo brasileiro é, na verdade, marcada pela relação de poder que as elites sempre exerceram nas redações. Assim me contava meu saudoso avô, que me deu de presente sua carteira de repórter do Diario da Noite, assinada em 3 de fevereiro de 1938: Rio de Janeiro, Adelino Christovam de Amorim.

O documento chegou às minhas mãos junto com uma flor de papel, que deve ser fruto das noites boêmias da Capital Federal, no segundo quarto do século passado. E a assinatura de uma das mais emblemáticas figuras da história do nosso jornalismo: Director: Austregésilo de Athaide.

Acho que temos de lutar a favor da liberdade de expressão das diferentes opiniões existentes na nossa sociedade. Discordo do ponto de vista de quem diz que os veículos comandados por pouco mais de uma duzia de empresários represente a caleidoscópica sociedade brasileira.

Mas realmente não sei se a simples divisão da categoria ao meio traria algum resultado ? Nos meus anos de prática, conheci quatro tipos de profissionais e tenho amigos entre todos estes grupos:

Aqueles que não compreendem nem o básico do contexto político.

Os que, declaradamente ou não, escrevem o que o patrão deseja.

Os que tentam dar um tom mais próximo da sua visão, mas sabem se adaptar ao necessário para continuarem nos seus empregos.

E os que têm uma visão de mundo tão forte que não conseguiriam redigir nada sob as linhas ideológicas do empresário-político que é proprietário ou comanda ideologicamente uma redação.

Evidentemente, no dia-a-dia as pessoas passam facilmente de uma posição para outra. E ao longo dos anos quem era um sonhador vira um infeliz reprodutor de verdades alheias (também conhecidas como releases).

No meu caso particular, já entrei numa redação sabendo que não conseguiria esconder a emoção que corre nas minhas veias e as idéias que tenho no cérebro.

Diante disso, fiz uma opção simples. Depois de sair da Folha de Pernambuco por opção, entrei no Jornal do Coummercio no caderno de Esportes. Não imaginava eu que ali também a política exerce uma forte influência.

Mas isso não é o mais importante. O que considero mais chocante na minha vivência são os grandes profissionais que deixaram o Jornalismo. Com certeza a maioria dos que que convivi que expunham nos seus textos a verve de um repórter que escreve com o sentimento próprio.

Só vim a trabalhar em uma editoria de Política, em Brasília. Mas dividi algumas conversas com Marta Samico e Alberto Lima, que era para mim o exemplo de repórter de Política, na minha época ainda de estagiário. Desde então, nunca conheci ninguém que se dedicasse tanto a ler Diario Oficial e chafurdar as incoerências dos nossos governantes.

Como muitos outros (citaria meus professores, Samarone, Marinita...), Alberto Lima é mais um exemplo – espero que feliz para ele – de um repórter que deixou o ofício. Vive em Paris e passou em um concurso do Itamaraty. Acho que teve uma sorte melhor do que o meu avô, que veio para Recife e virou advogado, mas no fim da vida curtiu bastante a memória das aventuras na antiga Capital Federal.